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Goodfelas, de Márcio Américo

 

Este puta texto é do Márcio Américo. Foi puxado do blog do Mário Bortolotto. O link para os blogs deles estão aí ao lado.

Num momento eles estão sérios e compenetrados num evento que discute o processo criativo, e fazem perguntas e levantam teses e defendem suas crenças e trabalho, parecem intelectuais, parecem realmente gênios criadores, num outro momento estão num bar, e, numa inércia inevitável, falam do processo criativo e após a primeira cerveja falam dos velhos autores e aparecem Fante, Humssun, Dostoiévski, alguém cita Thomas Wolf, Mauricio de Souza, cinema e aquele bar que fecha depois das 10 (da manhã), e alguém sem dizer “mas, mudando de assunto” confessa que está em vias de ter um filho chamado “underline”, e outro diz que cerveja sem álcool é coisa de viado, e outro insiste que montará Esperando Godot desde que godot seja ele, e aí fala-se de como pais vítimas de uma aparência idiossincrática (oh! acabo de criar um eufemismo pra feio) têm filhos bonitos, e discorre-se acerca de papinhas e fraldas e de como em nosso tempo era assim assado, alguém falou daquele cara que vendia cachorro quente na madrugada e faliu por causa da onda “bright”? cervejas descem, o volume das vozes sobem, são no fundo garotos, meninos sentados no meio fio, contando como foi legal ver pela fresta da porta do banheiro uma garota nua, e então, cúmplices, alguém solta a senha:

_ apresento meu amigo
_ de que terra que ele veio?
_ da terra do arroz
_ e o que que ele merece?
_ a pica de nós dois.

Todos riem.

Isto é só um intervalo disto que se chama viver, é aquele momento em que deus marca bobeiras e nós, moleques de cabelos brancos, furtamos a chave do Edem e brincamos por lá, mijamos na árvore do conhecimento e atiramos pedras nas serpentes falantes. Isso é só um traço daquilo que muita gente chama de amizade.

Londrina, 2007, teatro Zaqueu de Melo e bar do Lucilio: Marcio Américo, Marcos Losnak, Mário Bortolotto, Leprevost, Apollo Teodoro, André Galvão, Maurício Arruda Mendonça, Eloyr Doin Pacheco...

 

TRAILER DA PEÇA SINFONIA PATÉTICA

MEU ARTIGO ATUAL NO GUIA DA SEMANA: Rebanho cego de pastores mudos



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h04
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Chérie Blue Escarlate, de Maicknuclear

 

 

 

 

 

 

Animal. Arredio. Abissais afagos. Sentido seu cheiro de âmago, a essência de sua nuca... Omisso. Olhos saindo a francesa, tergiversando no espaço-tempo.

Nunca o cinzeiro esteve tão sem vida. Tão sem suas nódoas de concubinas e sirigaitas de outrora e o sopro de palavras prestidigitadas pela boca de quem salva-se com a bóia furada da escrita... "Você tem uma boca tão linda", diz, fascinada, de olhos ciganos e fios que descem como as cascatas do anfitrião em seu claustro.

De la rua. Mecenas. Mercenário de palavras mor, como os dissabores da piña colada. Metropólico úrico. "Quanto você vale, Dorothy?". Todo sonho tem preço, não me culpe se a bíblia é um grande eufemismo para "lei da selva". Respire, dê um tempo, segure aqui minhas armas enquanto vou ali fazer das tripas um rebento. Partir pro arrebento. Enquanto arrebento cream cracker e tormento.

Faço título de sua submissão aos meus excessos "hardcore" nada líricos. Descubro os milagres do jejum forçado e meia garrafa de vinho. Solo blues com pálito de fósforo no violão para me mostar mesmo, e nem ligo, pois sou o cara do show. E cedo toda minha vitalidade, na maior, quando resolveste deitar meu zíper por terra.

"Nas bolas, amor. Nas bolas", pois baixaria mesmo é nascer brasileiro. Eu já disse isso em algum outro texto, mas adoro repetir pra você!. E num hiato de sua lascividade registro as cenas que gozarão no papel, na extensão da memória, todas lembranças vegetais. Manuais lembranças. Fios que não se esquecem de propósito. Objetos a te devolver n'outro dia. N'outra loucura impulsiva e zíperes que caem por uma terra bem longe da passionalidade vil.

A arte de amortecer quedas!. O apreciar de um novo elixir. "Já pode devolver as armas, meu amor", pois dormirei entre as fronhas que sua mordida escandinava, vermelhinha quando esbofeteada, maculou.



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h10
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Um texto de Jarbas Capusso Filho

Um gato desce a lateral do prédio com as garras enfiadas na parede. Há um rastro de sangue no condomínio. Desde o 100º andar. Um pombo faz rasantes na cabeça dos ratos que dão braçadas na enxurrada, contra a correnteza. As meninas gritam anorexia pro vigia e pensam em narizes aquilinos entupidos de algodão. Algo está fora de forma. Meu carro parado com problemas de carburação. Muita raiva e gasolina batizada no motor. Olho pra nuvens na esperança que pare de chover e a cidade pare de chafurdar em hostilidade e restos de molho de macarrão a lá fred krugger. Não pense que há um lado bom nisso. As pessoas tem essa mania obtusa de achar que sempre tem um lado bom nas coisas terríveis. Coisas terríveis são terríveis e só.. O único lado bom é o de fora. Já que lá dentro, as coisas não funcionam como deveriam há tempos. Nunca vi tantas socialites vendendo lágrimas no semáforo. Lagrimas do Paraguai. Nunca vi tantos suicidas planejando o futuro e rãs engolindo pítons na ante sala do analista.



Escrito por Cesar Ribeiro às 10h12
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Outro naco da Lasanha - Lindsey Rocha

Destilado (link para o blog da Lindsey ao lado)

ela me disse que um dia quase o atropelou. quando soube que era ele, sentiu-se importante. uma outra me disse que às vezes ele anda com roupas esportivas bem normais e que sempre olha antes pras tuas pernas, depois pra tua cara. e também que se você faz menção de cumprimentá-lo, o rosto dele perde malícia e ganha decepção. 

bem comum alguém quase atropelar uma pessoa. quero dizer, acontece, não é? é também muito natural por essas redondezas olharem para nossas pernas e depois para o sorriso ou olhos ou coisa que o valha. esse tipo de papo não vale nada. e há algo de assustador e psicodélico na maneira como as fisionomias têm se desenhado conforme as conversações. 

ele escreve pra caralho, mas se destrói. veja bem, não é que eu seja coerente em tudo que digo ou faço, porque senão já teria morrido, já que acredito mesmo nesse funcionamento, nessas entrelinhas místicas da vida de um ser humano. viu, aquele lance de que as energias sexuais às vezes são perigosas e que você está exagerando ultimamente na quantidade de caras que... tudo aquilo era piração da minha cabeça, sabe? eu não queria realmente dizer tudo isso pra você, mas quando as coisas entram em colapso, é preciso fazer alguma coisa, concorda? porra, como a gente vai poder continuar agora se nunca mais vou olhar pra você sem ver aquela maldita imagem? oi! tudo bem??? nossa, acontecem coisas na minha vida que me deixam de cara! tava pensando em você agora mesmo. estou aqui no museu. será que vou até aí? sabe o que é, eu tava caminhando no passeio daí pensei em te convidar pra almoçar. claro, guria! vem pra cá. quando chegar, manda uma mensagem e eu saio pra te encontrar. beleza. o problema é que você pira muito nisso tudo, entende? eu não tô dando conta. não sei o que está acontecendo. fiquei maluca porque olhava pra ele e queria ficar mas não podia porque ia parecer que sou uma oferecida. o mínimo que ele devia fazer é te agradecer. mesmo se não fosse um texto, sei lá, se fosse um papel de bala com aqueles recadinhos estúpidos, você, corajosa, foi lá e entregou, e olhou, e se ferrou. enfim. quer entrar? não posso, menina. eu tava muito louco ontem, por isso não entrei na tua casa. não consegui entrar. tinha guardado um pouco, sabe? pra dar um teco. poxa, você ainda nessa, cara? pois é, mas foi horrível. vou parar. aham. aham. não brinca. ei, tô com uns projetos aí de fotografia. fizemos uma revista. ah, aquele pessoal que fez uma revista aí com nome de mulher. tô ligada. rola um jazz hoje? um e noventa e nove pra entrar? ei, vem cá, essas pessoas que escrevem, o que elas comem? e você, moça? o que vai pedir? não sei. não sei o que eu quero. tá, olha só, você quer carne branca ou vermelha? branca. então traz dois pratos do dia pra nós, bem pouca comida, com um pouco de batatinha pra cada um. nossa. que silêncio. depois daquele alvoroço todo, deve ser ótimo vir aqui assim de madrugada de vez em quando. aham. meu violão rachou. que merda. pois é. paguei a maior nota nele. violão de folk. corda de aço. esse negócio de violão acho que depende do sentimento da pessoa que trabalha a madeira. que bonito isso! se cuide. você também. já viu esse filme? a cena em que ele cai da bicicleta e olha para o touro? não. você dá aula de quê mesmo? eu tava lendo kafka esses dias, aí tinha um trecho lá em que o cara dizia que jejuava porque não tinha encontrado comida que lhe satisfizesse. acho que é isso. larguei. parei com tudo. quase um artista da fome. uma cerveja? você bebe destilado?



Escrito por Cesar Ribeiro às 19h56
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Você conhece o Ivan Lins?

Você fala de querosenes pra fritar o mundo e eu só quero um abajur lilás pra colocar no tapete e dar um tapa no visual. Uma coisa tipo Plínio Marcos. Sem prostitutas nuas e carrascos vestidos. Não que Nelson devesse ser chamado pra explicar a beleza do pudor na América Latina, mesmo porque já tá todo mundo de saco cheio de desenrubescer. Ela grita colérica uma fúria ao vento. Ainda não entendeu que as sirenes foram feitas pra esconder o grito, e não curar. Liga o som no último volume como se sua cabeça pudesse calar o que pensa, mas a música chega a todos os cantos menos lá. É foda uivar tristezas pruma lua desonesta. Você fica esperando um príncipe encantado e o que vem é a punhalada, a lâmina fria atravessando a carne flácida. Mas ela já sabe que hospitais não têm leito porque tão de saco cheio de defunto. O salário não cobre tanto aporrinhamento. Então só resta gritar que vai juntar cacos de vidro pra contaminar a melengada com uma doença ainda inexistente que ela cismou que vai pegar. Mas enquanto isso mantém o bordado guardado na gaveta só pra passar o tempo. E ela fala de terapia de choque pensando em tropa de choque, mas o que falta mesmo é apenas uma tomada que ligue os fios. Isso ela ainda num sabe. Não parou pra pensar que o espelho reflete mas não diz. Então ela cisma em brincar de espelho meu e ouve várias negativas, o que só faz ela querer estocar mais querosenes pra fritar o mundo. Quando vê o abajur lilás chegando, não entende que pode brincar de apagar e acender, afinal aquilo é apenas luz, e luz também é um saco. É onde tudo começou. Tá naquele texto grande que a gente vê em alguns hotéis e quando alguém morre. Na fúria emburrecida, ela pega um cotonete azul e tenta fazer jorrar o sangue vermelho, mas tudo que sai é apenas um naco de cera do ouvido. Agora ela ouve o som, mas o que está tocando é Ivan Lins.



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h00
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Duracell Life - de Jarbas Capusso Filho

 

 

Desesperador o teu graffiti
Seco e áspero como a fome
Você desenha
uma fotografia p&b libidinosamente pura

                             numa cegueira acrílica

                        mantras fakes em aerossol

 

silca na tua pele culpa escura com anzóis

                                     curtos  de bambu

Assim é a minha própria e esperada surra

Vejo o teu desleixo com as cores

                      com o resto de voz

                do teu histerismo futil

                              the 10h floor

 

Eu, que sonhava com coisas velozes e seguras

                            como autoramas sem pilhas

                                         e forcas na varanda

Escrevi lorotas convincentes

                                          sobre a minha vida

               com sobras hepáticas e muitos nãos

Agora tenho trocentas baterias alcalinas

   gastas com minhas epilepsias, billie holliday

                                             e takes de solidão

 

(link pro blog dele ao lado) 



Escrito por Cesar Ribeiro às 11h27
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Essas coisas que andam no ar, de Amilcar Neves

Este texto é do escritor Amilcar Neves, que acabou de lançar seu novo livro, Relatos de Sonhos e Lutas, lá em Floripa. Segue o dito.

Essas coisas que andam no ar (Amilcar Neves)

 

"Pontes", ele falou, "tanto quanto aviões, às vezes também caem".

Esta é a vantagem de ter uma feira de frutas, legumes, verduras, biscoitos, queijos e doces na esquina de casa, ali adiante, toda manhã de segunda-feira: poder conversar com o Velho da Feira, como ele é conhecido. Dizem que se chama mesmo é Venâncio da Fonseca, mas isto ninguém sabe nem está preocupado em averiguar. Ninguém sabe igualmente a que horas ele chega na feira, pois, por mais cedo que se vá até lá, ele já está a postos, escolhendo, discutindo preços e qualidade, reservando. Correm apostas no bairro sobre esse horário dele, e o bolão anda alto, pelo que asseguram os entusiastas da fezinha.

Este é um segredo inconfessável: toda segunda-feira acordo tão cedo quanto um motorista de ônibus e me toco para a feira sob o pretexto de abastecer a geladeira. Não imaginem, porém, que se trata de uma feira enorme, de dobrar esquina e ocupar transversais. Não, não é nada disso, são apenas duas barracas, na verdade duas kombis, uma do Ireno, que fornece os produtos manufaturados (de manus + facere, latim, fazer à mão, em português), a outra, do Davi, que se encarrega de suprir de verdes, raízes e correlatos as casas próximas.

Acordo cedo e o primeiro que vejo é o chapéu surrado de cor indefinida. Sob o feltro, sua figura impávida e tranqüila, em gestos compassados e voz pausada, apalpa gêneros à venda e comenta assuntos momentosos. O Velho da Feira (ou o respeitável Venâncio da Fonseca, descendente direto do Marechal Deodoro, dizem) certamente deve sua aparência vetusta muito mais aos invariáveis terno escuro, gravata marinho, camisa impecavelmente branca, meias pretas e sapatos de couro brilhante do que aos registros da sua carteira de identidade.

O inconfessado, agora: corro cedo à feira toda semana com o intuito único de ouvir do Velho suas histórias e comentários para poder passá-los em seguida para o papel (mentira, ele é que passaria para o papel, se fosse o caso, utilizando-se de uma elegante caneta-tinteiro de abastecer no tinteiro, jamais de um desses modelos de substituir cartuchos de tinta, modernidade demais para quem venera penas de pavão - eu me limito a cravar as palavras na tela do computador) e despachar o texto para o jornal, já estourando o prazo fatal das tardes de segunda a fim de que este espaço das quartas seja honrado como Deus manda.

"Aviões caem e se esborracham mesmo quando já estão no solo", ele pondera, "enquanto as pontes estão se esfarelando por aí, mesmo nos grandes países desenvolvidos." Escolhe com cuidado voluptuosas maçãs de São Joaquim. "Grandes edifícios desabam, atingidos ou não por aviões." Lúbricas cebolas de Ituporanga. "Não se pode confiar cegamente em geringonças que contrariam a natureza." Uma chimia de banana de Tijucas, rubra e doce como todos os lábios. "Essas coisas que andam no ar, por exemplo." Morangos frescos e lascivos de Taquaras, o distrito de Rancho Queimado. "O homem é da terra, foi feito para viver na terra, no solo, no chão. A ele não é dado elevar-se mais do que a altura da qual possa cair sem se machucar. Violando esta lei, seus riscos se multiplicam e, quando essas coisas caem, porque foram feitas para um dia cair, levam junto um bando inteiro de gente." Pára e me olha:

- Já lhe passou pela cabeça que todo o concreto do mundo pode estar chegando ao fim do seu prazo de validade, isso que os técnicos chamam de vida útil? Já pensou o que vai ruir por aí afora? Vai faltar noticiário para contar os mortos, confie em mim - acaricia com dedos expertos um maracujá de Araquari, fruto da langorosa flor-da-paixão, e me dá as costas.


MEU NOVO TEXTO NO GUIA DA SEMANA: Arte Futebol Clube



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h15
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Ela sempre dobrou os guardanapos na medida certa*

Sabe aqueles instantes em que a rua parece estar parada gritando seu nome? Você olha da janela, caminha até a porta, bebe aquela velha cachaça e uiva uma tristeza pros automóveis. Um cão passa e nem te olha. Ele também tem mais o que fazer. Você está na sua, não quer saber de quantas marmitas faltam no mundo, de quando será o próximo feriado ou o jogo do timão. Ela fica caminhando de um lado a outro, sem conseguir parar de pensar no que fazer com os arrotinhos com o maridão acovardado na hora de buscar um trampo. Já foi chutado pra tanto lado que se ouvir mais uma negativa é capaz de segurar revólveres pra bancar o rango. Então fica parado. Olhando da cadeira a multidão uniformizada rumo à indústria. Ela apanha umas calcinhas surradas, velhos instantâneos de momentos de felicidade, junta os trapos que estavam sobre a cama e joga numa mala qualquer. Justo ela, que sempre dobrou os guardanapos na medida certa. Você fuma o último cigarro sabendo que terá de esmolar a nicotina na próxima vez. O sol começa a rachar de uma maneira diferente, como se não estivesse lá. O rádio anuncia uma chacina em um lugar próximo e você nem escuta. Não quer saber da novela malfeita que passa em seu bairro. Os arrotinhos são os primeiros a sair. Passam meio correndo, sem entender coisa alguma. São moleques, e moleques não foram feitos para entender. Compreensão é coisa de marmanjo metido a besta. Ela passa com o nariz meio empinado, a boca meio raivosa e o coração meio estraçalhado. Você fica ali, meio parado, meio gritando sem música. Você começa a perceber que é pequeno quando os vultos se afastam no horizonte até parecerem micropontos. A porta está aberta e você continua espiando o vazio. O cão passa de volta, lentamente. Ele também tem uma cara triste. Parece que quer te oferecer um cigarro ou um trago do melhor uísque. Mas aí você lembra que cachorros não bebem. Ele tá a fim de um rango. Você olha a geladeira vazia. Que merda. O cachorro entende. Deita do seu lado. Põe o focinho em sua perna. Você começa a pensar: cara, se Deus existe, deve ser um cachorro.

 

*este texto é da antiga, quem freqüenta o boteco já bebeu. Mas toma lá de novo



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h53
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Outro naco da Lasanha - Daniel Faria

Cemitério São Paulo  (sobre uma performance de Marcelo Ariel)

de Daniel Faria (um dos escritores do blog Língua Epistolar - link ao lado)

 

Sou uma coisa meio azulada. E não é porque não sou sua, nem de quem quer que seja (inclusive aquele que escreve), que não trago comigo uma emoção autêntica. Passo levemente minhas mãos translúcidas pelo seu rosto e você pensa que se trata do seu jeito único e pessoal de ver as mazelas ou os encantamentos do mundo. Mas tudo bem. Chamo isso de “minha generosidade”: apagar-me em benefício alheio.

Não me escondo nas sombras que vazaram dos seus olhos. Pense na sombra como um contorno que dá textura real ao Inferno leve e melancólico que te consome. É que pra conversar no inferno, fazer-se entender sobre o inferno, o cachorro e a criança se lambem, resmungam, olham-se fixamente nos olhos. Pra falar no inferno, o cascudo às vezes é a palavra necessária.

Estou aqui muito antes de você nascer, e sobreviverei às suas pálidas ilusões de “marcar presença” no mundo. Pense numa espiral azulada que se concentra num turbilhão. Pense na força, voracidade e violência de um turbilhão faminto, cheio de facas afiadas, que se desfaz aos poucos ou que desaparece inesperadamente. Um turbilhão com todos os nomes possíveis, o seu, que me lê, e também o daquele que neste momento me escreve. Trata-se, você bem vê, de uma leveza estranha: capaz de operar um deslocamento nas coisas com sua palidez azulada (a professora de história explicou um dia: as letras Ordem e Progresso são azuis, como azuis são as ruínas de um hospício abandonado). É uma leveza capaz de ferir, de conhecer seus ínfimos êxtases e de manter-se em perplexidades passageiras. Uma leveza atravessada pela multidão assombrosa de anônimos, apaixonados, caçadores e visionários. E você (te ensinaram este nome) chama o turbilhão de “meu íntimo eu”.

Agora, se você não está entendendo aonde quero chegar, pense na bandeira de uma nação qualquer, manchada com sangue de ketchup, formando uma espécie de tapete vermelho de boas vindas na entrada de um cemitério.

 

CLICA AQUI: Revista Lasanha



Escrito por Cesar Ribeiro às 10h57
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Um naco da Lasanha - Jorge Mendes

Bossa-nova com céu incoberto (Jorge Mendes/link pro blog dele ao lado)

 

no compasso quebrado do medo, todos dançam

adorno

ocorre que cultivo o medo, a vertigem no escuro, destilados. aderi as dissonâncias, ao solo de uma nota só.

desarmonizo-me, portanto.

quer dizer, não sou como a moçada do hardcore que tenta passar uma mensagem positiva. comigo, como nos versos do renato, o peso do metal vai contra as nuvens, em si.

procuro, de fato, ottis readding, etta james, tim maia. isto é, um matiz blues note com doses maciças de screamin jay hawkins, o bom e velho vinho jacaré, antes e depois do vodu, obvio.

james brown, na quebrada.

estou falando de alguém que dance comigo ao som dos trovões, que me chupe gostoso debaixo da tempestade, descompassadamente e "vê se ao menos me engole".

quero coisas que não flutuem e nem grudem ("pra que rimar amor e dor?"). formas sólidas. nada a vácuo. conteúdo algum. soul.

o negócio, no entanto, é que não tenho nenhum truque toni belloto (& família titãs) debaixo da manga. daí a capoeira no escuro. o gingado torto entre os canibais. a insensatez.

claro, não sou nenhum dorival caymi, mas também posso constatar que a miscigenação finalmente deu merda (o brazil não conhece o brasil, sei).

o que importa, contudo, é o balanço do medo (incluindo aí acordes técnico-melosos pra perfeitos idiotas que "perderam a pureza" e outras cadelinhas lésbicas subnutridas do blues da piedade). essa certeza que fodeu de vez, sem dó.

é bem verdade que eu poderia dar um desconto.

isto é, poderia ensaiar meu samba rasgado do crioulo doido com\passos mais afinados na estupidez nazi-autista do coro dos canalhas contentes com o próprio umbigo. ir na cadência do esgoto, por exemplo.

poderia mesmo caprichar e deixar crescer o cavanhaque, usar rabinho de burro, malhar uns ferros, tomar vitaminas, agitar a pós (e/ou virar escritor/advogado), criar cuervos, comer merda, em suma.

todavia, estou apenas considerando a possibilidade da queda. o tropeço final. qualquer coisinha que faça parar de chover mortos na minha batucada da vida.

posso ir na virada, inclusive.

noutro plano, é bem verdade que estou mais calmo agora (pianíssimo, com ¼ de tônica no duplo, sem gelo, por enquanto) que estou morto fazendo gracinhas ("tentando mímicas", como diria itamar assumpção, o cara mais importante da música popular brasileira dos últimos tempos, pode crer).

grovin, digamos.

entendo, portanto, que chegamos ao fundo e descobrimos que o buraco é mais embaixo (nenhuma starway to heaven na balada, é certo).

mas não há espanto. quero dizer, toda merda bóia e o arranjo, invariavelmente, é sempre mercantil (não esquecendo, os violinos da caridade hipócrita e a orquestra de choros e lágrimas do renato aragão e suas criancinhas da esperança).

além do mais, existe a falsificação dos sonhos, paulo ricardo, pílulas antidegenerativas, deus, dengue, campanhas da fraternidade, as canções dos cuzões traídos do pé de serra e sertanejos, favelados (com idade inferior a 15 anos, sempre), servindo de avião e/ou tiro ao alvo para os assassinos da civil e raps com tênis de marca desfilando pelo piso de mármore dos shoppings.

claro, todos os nativos dizem i'am.

por hora, sinceramente, quero que o barquinho afunde e que tudo o mais vá para o inferno, meu bem.

isto é, se a ana maria braga e todas as apresentadoras dos programas matinais existem, o que mais pode acontecer de horrível nesse carnaval no lixo?

(por mim, só quero "é botar meu bloco na rua, gingar, botar pra fuder", e isso é sérgio sampaio e os meus cabelos no inferno, entenda).

ademais, não será minha "balada para um fodido como eu" que irá aquecer o baile dos esquizos e nem aumentar o índice de audiência dos prezadíssimos canalhas do ibope (e "uma festa é sempre uma festa: as pessoas é que nem sempre são pessoas", frase do cacau, o canalha cachorrão).

sendo assim, nada de um cantinho e um violão pra mim que vivo no escuro, engolindo sapos, ouvindo cantar as sereias maníaco-depressivas da hora da estrela (e aqui não entra nenhum réquiem tropicalista para concretistas do salão dos espelhos convexos e/ou cu de tom zé para funcionários públicos, creia).

fica, portanto, apenas essa nota fora de si soando desafinada em mi(m), - "é que no peito dos desafinados também bate um coração", pois é -, pelo fim da noite, e esse canto bêbado equilibrista deslizando pelo fio afiado das madrugadas dessa longa estrada da vida (a porra toda em bemol, por favor) onde os cães não se cansam de uivar i love you, baby.

e o refrão do bolero - só para não esquecer a ciência do chico - é a mesma de sempre, quer dizer, de que lado você vai sambar, irmão

CLICA AQUI: Revista Lasanha



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h19
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Um texto de Bruna Beber

Sugar Blues


Lillian Bassman

um corpo em chamas
rolando pela escada
de incêndio do meu prédio
era você
vírgula
meu bem
vírgula
era você
interrogação

eu avisei para não brincar
de molhar meus barcos
de papel

eu avisei que não se pode viver
como se faltassem
poucos dias para o carnaval

você indo embora com o foco da coqueluche
e aliviando a vizinhança
você subindo aos céus com os passarinhos mortos
por crianças más
com estilingue

era você se desfazendo
na doce baforada
da janela aberta
numa manhã de calor

era você em pó
em papel picado
no tapete do asfalto
na roupa branca dos médicos
e no antigo toldo do açougue
do andar de baixo

agora eu vou rezar pela sua alma
por um emprego novo
e por um vício a menos
enquanto passeio pela cidade
num ônibus circular
numa quarta-feira de cinzas.

(Bruna Beber)
 
*este texto, de Bruna Beber, foi retirado do blog A casa da Nina, da Ana M (link ao lado). Para ler mais textos de Bruna Beber vá ao site Escritoras Suicidas (link ao lado) ou ao blog da escritora (link ao lado)


Escrito por Cesar Ribeiro às 10h16
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Um texto de Jarbas Capusso Filho

texto extraido do blog Uivos, Latidos e Fúria, de Jarbas Capusso Filho (link ao lado)

 

encher os olhos e os bolsos com coisas divinas

desapercebendo a miséria embutida nos grandes gestos de amor

onde sempre chafurdam as barras da minha calça jeans

 

assim é a minha fé

assim é a minha triste constatação do outro

pois a generosidade alheia é assim

 

como sempre

o tambor do meu treizoitão

continua entupido de disfarces e gentilezas

balas dum-dum altruístas e incandescentes

pro regalo de qualquer alma suburbanamente fútil

 

enquanto isso

os portões da minha casa

continuam oxidando

com tanta salivação e conversa fiada do cão

 

de novo

ele chegou tarde e esqueceu as chaves

 

nada mudou

entende?

 

(JCF)



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h00
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