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Escárnio - artigo de Hélio Schwartsman

 

O caso Renan Calheiros dá um novo significado ao termo "avacalhação" --sim, o trocadilho é intencional. Os senadores que o absolveram hoje escarnecem da opinião pública que deveriam representar. Poucas vezes se viu um espetáculo tão deslavado de corporativismo, e diante de evidências tão sólidas de irregularidades que constituem, para além de qualquer dúvida, quebra de decoro parlamentar.

Em seus primórdios, o escândalo despontou discreto, "familiar". Tudo começou em maio, quando a revista "Veja" estampou reportagem afirmando que o senador teve despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. O dinheiro serviria para bancar pensão da filha que Renan teve com a jornalista Mônica Veloso --a mulher bonita da vez. Até aí, tudo normal, se procedêssemos a um escrutínio cuidadoso, muitos membros do Congresso teriam muitas explicações a dar. No mais, o país já se habituou a ver escândalos políticos revelarem beldades calipígias.

O que se seguiu à acusação inicial contra Renan é que redefine os padrões de corporativismo do Congresso e dá nova materialidade à noção de cara-de-pau.

Para rebater a denúncia, o senador afirmou que Gontijo era um velho amigo que, por imperativos de discrição --Renan é casado--, apenas repassava a Mônica dinheiro do próprio presidente do Senado. A tentativa de explicação é meio canhestra, mas, à luz do "in dubio pro reo", pode-se dizer que pelo menos parava em pé.

Surgiu, porém, um problema patrimonial. Para justificar as transferências, todas em espécie, sem registro bancário, o senador recorreu a seus dotes como pecuarista. Constatou-se que estávamos diante de um verdadeiro prodígio do mundo dos negócios, que, com um rebanho alagoano, conseguia lucros muito superiores aos auferidos por tradicionais criadores das mais produtivas regiões de São Paulo ou do Rio Grande do Sul. De novo, precisamos dar ao senador o benefício da dúvida. Seria injusto, afinal, pretender puni-lo apenas por ser mais eficiente que a média de um setor notoriamente arcaico.

Como que a submeter o Renan a nova provação, reportagem do "Jornal Nacional" mostrou as notas apresentadas pelo senador para sustentar sua versão incluíam recibos com irregularidades e emitidos por empresas de fachada. Renan, é claro, não se deu por vencido. Atribuiu os problemas fiscais a intermediários. Ele teria agido de boa-fé. E não se pode esperar de um senador da República que seja, além de bom amante, pai consciencioso e pecuarista exemplar, também um "expert" em fraudes.

O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos quando um dos frigoríficos para os quais o senador teria vendido gado foi assaltado na véspera do dia em que entregaria documentos para serem periciados pela Polícia Federal. Papéis que interessavam à apuração foram levados pelos bandidos. É muito azar, considerando-se que o espicilégio poderia corroborar a defesa do parlamentar.

Apesar dos contratempos, a PF acabou concluindo sua investigação. Afirmou que os documentos apresentados pelo senador não eram suficientes para sustentar a sua história. Disse que a papelada apresentava lacunas graves, como a ausência de registro de despesas de custeio na atividade pecuária. O pagamento de mão-de-obra, por exemplo, só aparece na movimentação financeira de 2006 e não na dos anos anteriores.

Outro problema constatado foi a multiplicação do gado. Em 2004 surgiram cem reses na criação, sem que haja registro de compra ou de nascimentos. Dado que a ciência não acata mais a abiogênese, o senador fica com um problema. Não é só. Como os peritos apontaram um déficit nas contas de 2005, Renan Calheiros apareceu com um empréstimo de R$ 178 mil tomado à empresa Costa Dourada Veículos que ele antes "esquecera" de declarar.

Enquanto se desenrolavam tais batalhas em torno da contabilidade rural, surgiram outras denúncias contra o senador. Ele teria favorecido a cervejaria Schincariol, que comprou uma fábrica de Olavo Calheiros, irmão de Renan e teria adquirido, com recurso a testas-de-ferro, uma rádio e um jornal em Alagoas, no valor de R$ 2,5 milhões. O presidente do Senado, é claro, nega ambas as acusações.

Acreditemos ou não em sua inocência, precisamos reconhecer em Renan a virtude da tenacidade. Não sou especialista em análise probabilística, mas creio serem bastante reduzidas as chances de que as dificuldades do senador se devam apenas a uma conjunção de azares, talvez temperadas por erros menores. Não estou, é claro, defendendo o linchamento do senador. Tantos e tamanhos indícios devem converter-se num processo ao longo do qual Renan terá a oportunidade de defender-se, longe da tão temida pressão da mídia. Mas um mínimo daquilo que alguns chamam de vergonha na cara exigiria que Renan se afastasse da presidência do Senado e do próprio mandato de senador até que a situação estivesse judicialmente esclarecida em seu favor. Por bem menos políticos asiáticos costumam praticar o suicídio. No Brasil, porém, Renan não apenas se mantém no cargo como ainda manobra descaradamente para dificultar os trâmites da representação no Conselho de Ética. Nas horas vagas, distribui ameaças veladas, contra colegas que não estariam dispostos a apoiá-lo, e abertas, contra a editora Abril, responsável pela "Veja". Até acredito que possa haver um complô. A Abril, afinal, também edita a revista "Playboy", que tem suas vendas multiplicadas por escândalos que envolvam mulheres bonitas que se disponham a posar nuas, como é o caso de Mônica Veloso. Brincadeiras à parte, há um elemento-chave que torna possível tanta desfaçatez a céu aberto: o voto secreto em plenário para a cassação de parlamentares acusados de traquinagens éticas.

Costumo ser bastante cético em relação ao bem que grandes reformas políticas possam trazer, mas pôr fim ao voto secreto de deputados e senadores é uma medida urgente. Representantes da população, antes de satisfações a suas consciências, as devem ao eleitor. O circuito democrático simplesmente não se completa se o representado não tem como averiguar o desempenho de seu representante. É preciso retirar da cena este fio desencapado que coloca o próprio sistema democrático em curto-circuito.

Uma rápida passada pelo mais rumoroso escândalo dos últimos tempos --o mensalão-- dá bem a dimensão do mal que o voto secreto tem causado aos hábitos políticos do país. Nada menos do que 19 deputados foram acusados de empazinar-se com recursos ilícitos do chamado valerioduto --o esquema criminoso de compra de parlamentares gerido pelo publicitário Marcos Valério de Souza. Destes, 12 foram inocentados em plenário; quatro renunciaram antes da abertura do processo para escapar à punição; e apenas três foram cassados.

Há no Congresso uma proposta de emenda constitucional que acaba com o voto secreto em plenário, só que, contrariando a praxe da Casa, ela dormita há um ano nos escaninhos da Câmara. Foi aprovada em primeiro turno pelo incrível placar de 383 a zero, mas precisa passar por uma segunda votação antes de ir para o Senado. Normalmente, o prazo entre as duas votações na Câmara --a segunda delas quase protocolar-- não passa de um mês. É a prova perfeita de que o Brasil conta com dois Congressos, um que opera sob os olhares atentos da sociedade, no qual as votações são abertas e a opinião pública é levada em conta, e outro, mais sombrio, no qual parlamentares representam apenas seus próprios interesses, nem sempre confessáveis. É nesse Congresso-fantasma que prosperam Renans, Severinos, mensaleiros e sanguessugas. Sombras se combatem com luz, transparência.

 

Fonte: Folha Online

 

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MEU ARTIGO ATUAL NO GUIA DA SEMANA: Rebanho cego de pastores mudos



Escrito por Cesar Ribeiro às 18h03
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Prato do dia

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MEU ARTIGO ATUAL NO GUIA DA SEMANA: Rebanho cego de pastores mudos



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h31
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Entrevista com Roberto Romano

Por Gabriel Manzano Filho

Se os 81 senadores absolverem hoje o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o Brasil assistirá a "uma piora ética, um desconsolo da cidadania e, de novo, a prova de que a falcatrua sempre dá frutos". É o que avalia o professor Roberto Romano, titular de Ética e Filosofia da Unicamp.

A eventual absolvição do senador também trará outro impacto, segundo Romano: mais desperdício de recursos. "Pois, mesmo absolvido, Renan não disporá de forças para comandar o Senado. Sua imagem está no chão e novos processos contra ele vêm por aí. Para manter a presidência, o governo vai ter de investir muito dinheiro." Descrente do papel que hoje desempenham os senadores, por ele definidos como "estafetas de luxo", o professor compara o empenho pelo voto secreto na sessão às atividades da Máfia. Em sua opinião, "no Brasil não existe hoje federação nem existe república" e o que melhor define o País é uma frase do filósofo italiano Norberto Bobbio: "Estado que não tem transparência é o anti-Estado. É o que nós temos." Eis a entrevista:

Se o presidente do Senado, Renan Calheiros, for absolvido, qual será o impacto dessa decisão?
Será uma piora da ética, um desconsolo da cidadania, mais uma volta no parafuso da desconfiança do cidadão nas instituições. Será o reforço do "é dando que se recebe". Pois o governo não vai conseguir segurar a presidência do Senado e Renan não terá condições de continuar. E para manter a presidência como está será preciso muito dinheiro.

Depois de aprovada a CPMF, não há grandes temas dependendo de votação até 2010.
Mas o Senado continuará sendo o lugar dos estafetas de luxo. Chamo de estafetas porque, salvo raras exceções, eles servem às oligarquias regionais e aos governadores e prefeitos, como emissários junto ao Ministério da Fazenda e vendendo seus votos no plenário. Aí abre-se espaço para uma heterodoxia ética e a falta de transparência, de accountability, que é a capacidade de um sistema de se fiscalizar e deixar-se fiscalizar. Quando decidem que a votação será secreta, acabou a accountability. Aí me ocorre uma definição de Norberto Bobbio: "Estado que não tem transparência é o anti-Estado. É o que temos."

Que lhe parece o grande empenho de Renan pelo voto secreto?
A imagem que me ocorre é a da Máfia. Ela é uma sociedade secreta. O maior medo dessas organizações é que a imprensa, a Justiça ou o Estado saibam de seus atores e atos. É uma coisa tão séria que, em contatos que tive com figuras do STF, percebi o grande desconforto que os juízes têm com o Poder Legislativo, que está exagerando na disposição para legislar em causa própria. Também acho que não se pode ficar mudando a lei com casuísmos, em cima da hora, mas lembro que tal segredo não faz sentido ao julgar um deputado ou senador. Isso é um sigilo anti-republicano. E há um projeto parado há um ano, no Congresso, sobre o assunto.

Por falar no STF, parece-lhe que transformar em réus os indiciados no mensalão foi caso isolado?
O que percebo é que boa parte dos ministros do Supremo tem clara noção da crise de Estado que estamos atravessando - percepção que não está à vista no Senado, por exemplo. Só para resumir, e sei que é uma expressão pesada, o Estado brasileiro não é uma federação e não é uma república. Não é federação porque os municípios e Estados não são financeiramente autônomos. Isso é tão essencial, na Europa, que foi o motivo pelo qual muitos países não entraram na União Européia. E não é república porque nesta há um padrão de igualdade da cidadania, sobretudo na norma jurídica. E se você tem foro privilegiado, já derrubou a idéia de república.

Fica um pouco melhor se Renan, sendo eventualmente absolvido, renunciar à presidência?
Talvez essa seja uma arrumação menos traumática. Mas não imagino que o herdeiro seja o José Sarney. Pode ficar o Tião Viana, que já é o vice e é um moço de boas maneiras. Mas é sabido que Renan se sente uma espécie de continuador de Sarney no Congresso, e deve haver muitos nós e acordos pelo caminho. Há interesses por trás e esses acertos não desaparecem de repente.

O que o sr. espera que aconteça hoje no Senado?
Minha expectativa é que, dado o segredo da votação, Renan seja absolvido. Com uma margem apertada, mas será.

O sr. nem cogita uma surpresa, como a da votação do mensalão no Supremo Tribunal Federal?
Aquele foi um bom momento, mas acho que as circunstâncias hoje são outras. Para mim seria uma grata surpresa se a decisão fosse pela punição do presidente do Senado. Mas há muitos indícios sobre o jogo do governo para mantê-lo. É grande o temor de que alguém independente assuma seu lugar e atrapalhe as votações.

Roberto Romano
Professor de Ética e Filosofia na Unicamp (SP)
Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études, de Paris. Autor de Moral e Ciência - A Monstruosidade no Século XVIII

Fonte: O Estado de S. Paulo

 

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MEU ARTIGO ATUAL NO GUIA DA SEMANA: Rebanho cego de pastores mudos



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h48
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Achados & Perdidos

 

Semana estranha. Não se sabe se é fim de algo ou recomeço. Fúrias derrubadas no tapete. Dúvidas fabricadas em momentos diversos. Uma doencinha que cisma em tentar aparecer. Instantes de fraqueza e intriga. Ao redor, tudo parece estar dando certo e todos estão sorrindo. Então é isso: as pessoas são realmente felizes? São realmente sensíveis como mostram em seus textos? Sei lá. Acho que não fui convidado para essa festa. Ando brigando com muita gente. Rompendo com muita gente. Acho que estou ficando mais sábio. Ou mais velho. Ou mais idiota.



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h30
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Arte Futebol Clube*

O esporte costumeiramente é utilizado com fins políticos, o que teve seu principal exemplo na Olimpíada de Berlim, em 1936, em que Adolf Hitler tentou comprovar a superioridade da raça ariana e encontrou pela frente um tal de Jesse Owens. Apesar dessa tendência e de sua espetacularização pela mídia, que buscou destacar a cobertura tendo como pano de fundo a utilização de um sentimento de brasilidade, os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro mostraram mais uma vez o poder de um evento esportivo como agregador de uma comunidade.

Há muito tempo o futebol desperta paixões nos brasileiros e em diversos outros países, uma paixão que muitas vezes esbarra na violência. O voleibol vem sendo cada vez mais disseminado e, sempre que surge um "brasileiro que dá certo", a modalidade que ele representa vivencia uma espécie de boom de praticantes ou aficionados, algo parecido com o tênis, com Gustavo Kuerten, e o automobilismo, com Fittipaldi, Piquet, Senna e agora Felipe Massa.

A receita fundamental do esporte é a competição com o objetivo da vitória. Essa noção de um indivíduo se sobrepor ao outro traz o sentimento primitivo e essencial do ser humano: a conquista. Por meio da conquista alheia acontece a sensação de estar representado naquele que ganha, como se aquela vitória fosse a nossa. Esse espelho que encontramos no outro criou a necessidade de os meios de comunicação destacarem a cobertura da área: há grande espaço para o esporte na maioria dos veículos, assim como os dedicados exclusivamente ao assunto, como emissoras de TV, jornais, rádios e revistas.

Obviamente, em um mundo objetivo, a subjetividade da arte não encontra idêntico respaldo ao do esporte na sociedade. Na arte não há competição e, portanto, não há vitória. Não havendo vitória, não há como julgar a superioridade de um em relação ao outro, o que acaba eliminando a possibilidade de uma "torcida" para a arte, elemento singular que vive da paixão e da necessidade de alimentá-la. Como não se trata de uma competição, o sentimento em relação à arte é um tanto desconexo. Não é movido pela paixão, mas sim pelo efeito que determinados acontecimentos causam em nós. O que quero dizer com isso é que, enquanto no esporte vemos grupos organizados querendo, desejando e muitas vezes se matando para que seu time seja vitorioso, vença e conquiste, na arte não há sentimento semelhante. Ninguém torce por ninguém, mesmo porque seria no mínimo estranho imaginar um mundo em que, em um festival de teatro transmitido pela televisão, os telespectadores estivessem de prontidão, assistindo às apresentações e berrando furiosos quando algo desse errado. Por exemplo, o ator errou um texto em determinada hora e a "torcida" adversária vaia.

De qualquer forma, apesar de a receita para a arte chegar ao público ser muito menos apreciada do que a receita do esporte, ainda percebo a necessidade de os meios de comunicação começarem a dedicar a ela um espaço semelhante ao destinado para o esporte. A meu ver, uma investida fundamental seria a criação de uma rede televisiva, que seja via cabo, nos moldes dos canais esportivos. Essa rede cobriria apresentações teatrais, espetáculos de dança, exposições, shows, produções de documentários, arte comunitária, arte-educação etc. Além disso, haveria as tradicionais mesas-redondas, entrevistas, agenda da semana e outros. Claro que quando falo sobre isso não estou me referindo aos shows do Babado Novo ou apresentações da nova comédia de Miguel Falabella e companhia, pois estes já possuem seus espaços nas televisões abertas. Refiro-me a uma cultura mais alternativa, não a grandes eventos. Também não estou me referindo à cultura regional envelopada para os grandes centros urbanos.

Uma rede como essa teria o poder de colocar a cultura mais próxima do cidadão, colaborando para a disseminação da arte entre a população. O efeito disso seria a multiplicação dos agentes culturais e o aprimoramento da consciência de mundo, afinal a matéria bruta da arte é a indagação. Por outro lado, haveria ainda a capacidade de revelar ao Brasil visões que o próprio país desconhece, tanto de produções estrangeiras quanto do que ocorre na atualidade em regiões fora do eixo Rio-São Paulo. E já que somos obrigados a saber que o David Beckham foi negociado por um grande valor em dólares para o clube Fraldinhas da Lapa e que a nova namorada do Zuleiko Fenômeno "bate um bolão", por que não apresentar um olhar mais apurado sobre a cultura e seu cotidiano?


ARTIGO ATUAL NO GUIA DA SEMANA: Rebanho cego de pastores mudos

*texto anterior publicado no Guia da Semana



Escrito por Cesar Ribeiro às 11h26
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Rebanho cego de pastores mudos

Saiu meu novo texto no Guia da Semana. Quem não sabe, escrevo há um tempinho uma coluna lá. A idéia é falar sobre arte, teatro e cultura. É um artigo, então nada de texto literário, apesar de o estilo da escrita ser o mesmo. Dá uma sacada lá e depois comenta se puder. É legal essa troca com as pessoas, pescar as impressões. Mesmo eu não sendo o mais bacana dos "respondedores de comentário". Pois é, o tempo é foda. Muitas vezes me vejo entre postar um texto ou responder comentários. Bom, chega de zubinzarrices. Tae o texto. 

 

CLICA AQUI: Rebanho cego de pastores mudos

 



Escrito por Cesar Ribeiro às 11h18
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Guerra tecnológica*

 

Exército chinês desfecha ataques cibernéticos contra países ocidentais

Chancelaria britânica é novo alvo de ofensiva que já danificou rede de computadores do Pentágono e do governo alemão

The Guardian

Londres - Depois de atacarem redes de computadores dos governos da Alemanha e dos EUA, hackers chineses provavelmente ligados ao Exército de Libertação do Povo (ELP) também invadiram o sistema da chancelaria britânica e de outros órgãos do governo de Londres. A informação foi divulgada ontem pelo jornal The Guardian, citando autoridades britânicas. O Ministério da Defesa não quis dizer se também foi alvo dos piratas. O deputado trabalhista Andrew MacKinlay acusou o governo de tentar ocultar a extensão dos ataques.

Os ataques cibernéticos chineses contra governos ocidentais vieram à tona em junho, quando a imprensa noticiou uma invasão da rede de computadores do Pentágono. Segundo o Financial Times, autoridades dos EUA disseram, na ocasião, que esse havia sido o mais bem-sucedido ataque contra o sistema do Departamento de Defesa americano.

Funcionários do Pentágono confirmaram que houve uma “infiltração detectada” no sistema de e-mail usado pelo gabinete do secretário da Defesa, Robert Gates. O último ataque causou apenas pequenos problemas administrativos. Uma investigação concluiu que o responsável era o Exército de Libertação do Povo. A suspeita, porém, era antiga. Alex Neil, especialista em China e chefe do Programa sobre Segurança na Ásia do Royal United Services Institute, em Londres, disse que os ataques cibernéticos chineses vêm ocorrendo há pelo menos quatro anos. E descreveu a investida contra o Pentágono como “a mais flagrante e descarada até agora” (ler mais abaixo).

Esses ataques refletem uma nova doutrina do ELP, descrita como “guerra de pressão direcionada” - ou seja, ataques a pontos específicos para deixar o adversário paralisado. O Exército chinês vem investindo na formação de especialistas e na criação de uma doutrina militar para o ciberespaço como forma de contrabalançar o maior poderio bélico dos EUA.

A chanceler alemã, Angela Merkel, cujo governo também foi alvo de hackers chineses, abordou esse assunto durante visita a Pequim no fim de agosto. Segundo a revista Der Spiegel, foram encontrados em maio softwares de espionagem chineses nas redes dos Ministérios de Relações Exteriores e de Economia e até no gabinete de Merkel.

MANOBRA POLÍTICA

As autoridades britânicas não quiseram dizer se o governo também discutiu o problema com autoridades chinesas. Acreditava-se, de início, que um incidente ocorrido no ano passado - que paralisou parte do sistema de computadores da Câmara dos Comuns - tinha sido provocado por uma só pessoa. No entanto, mais tarde, descobriu-se que um grupo organizado de hackers chineses foi o responsável.

Funcionários de alto escalão do setor britânico de defesa não quiseram dar detalhes sobre os ataques. Mas disseram que vários órgãos do governo foram vítimas dos piratas cibernéticos da China. Um especialista assinalou que tais ataques se tornaram um “problema constante”.

Segundo Neill, esses incidentes devem ser vistos tendo como pano de fundo do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, que será realizado em 15 de outubro e poderá determinar a próxima geração de líderes da China. O ELP estaria manobrando para garantir que seu grande poder não seja ameaçado. Se o Exército mostrar que os bilhões de yuans investidos numa moderna força informatizada foram muito bem aplicados, esse poderia ser um golpe de mestre.

fonte: O Estado de S. Paulo



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h30
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Derrida e Revista Cult*

 

Entre o perigo e a chance

Por Leyla Perrone-Moisés

* artigo publicado na Revista Cult

A desconstrução derridiana não pode ser explicada em poucas palavras. Apenas como introdução, lembremos que Derrida qualificou a cultura ocidental como "logocêntrica", isto é, baseada num racionalismo que pretende ser universal. O filósofo a "desconstrói" procedendo a uma leitura crítica dos textos de nossa cultura, em busca dos pressupostos metafísicos em que esta se assenta, revelando suas ambigüidades, contradições e não-ditos. A desconstrução rejeita o pensamento dualista (isto ou aquilo, isto contra aquilo) assim como o pensamento dialético (tese, antítese, síntese), deixando sempre aberta uma outra via que é a différance (diferença e adiamento). Esse pensamento sempre em processo, que é a própria desconstrução, leva à formulação de paradoxos que irritam e contrariam aqueles que gostam de respostas claras e categóricas, consideradas racionais, confiáveis e operáveis.

Entretanto, a força e a fertilidade da desconstrução residem justamente nesse enfrentamento constante das aporias, que desafiam o pensamento e deixam abertas as possibilidades imprevisíveis e incalculáveis do "por-vir". O vigor do pensamento desconstrucionista reside em seu caráter arriscado, e na coragem com que Derrida assume a responsabilidade do pensar sem garantias, avançando sempre em busca de "mais luzes".

A renúncia às garantias da filosofia logocêntrica tem, como contraponto, algumas palavras freqüentes no discurso de Derrida: "incondicionalidade" e "incondicional". Aparentemente, há uma contradição entre negar as verdades absolutas, apostar num porvir desconhecido, e uma ética da incondicionalidade, ligada surpreendentemente à defesa de causas "impossíveis". Mas esse paradoxo é a condição de um pensamento que é, ao mesmo tempo, livre e engajado.

A busca do impossível, do incondicional, é uma confiança no porvir. Trata-se de uma teleologia não teológica, mas que tem relações com a fé (Kierkegaard), e certo aspecto religioso (apontado, entre outros, por Habermas), talvez um resíduo de messianismo judaico. Mas, como não é um pensamento teológico, a desconstrução é "uma responsabilidade infinita, que não dá descanso a nenhum tipo de boa consciência" (Spectres de Marx, 1993).

No exame de várias (senão todas) importantes questões tratadas por Jacques Derrida, aparece a expressão "um perigo e uma chance". Vejamos alguns dos temas diante dos quais Derrida assume uma posição que implica "um perigo e uma chance".

O perdão
O perdão é uma condição para a reconciliação (dos indivíduos, das coletividades, dos Estados) e para a continuação da História, isto é, da vida. Nesse sentido, o perdão é uma "chance". Mas o perdão pode ser (mal) compreendido como esquecimento do crime, como apagamento da culpa e, nesse sentido, é um "perigo". Como defender o perdão com relação ao holocausto, ao apartheid, aos crimes das ditaduras latino-americanas? Diante desse impasse, entre o perigo e a chance, Derrida lembra primeiramente "a heterogeneidade absoluta entre o movimento e a experiência do perdão, por um lado, e tudo o que muitas vezes a ele é associado, isto é, a prescrição, a absolvição, a anistia ou o esquecimento sob todas as suas formas" (Sur Parole. Instantanés Philosophiques, 1999).

"O perdão é heterogêneo ao direito" (idem). Devido a essa heterogeneidade entre o crime e seu "apagamento", o perdão "deve ser concedido àquilo que é imperdoável". Como? Responde ele: "Se perdoamos o que é perdoável, ou aquilo para que se pode encontrar uma desculpa, não é mais perdão; a dificuldade do perdão, o que o faz parecer impossível, é que ele deve ser dado àquilo que continua sendo imperdoável".

O perdão não é esquecimento: "Para que haja perdão, diz ele, é preciso que o irreparável seja lembrado ou permaneça presente, que a ferida permaneça aberta." O perdão deve ser, portanto, incondicional, porque as condições para que ele seja concedido não existem.

A hospitalidade
A hospitalidade, isto é, a aceitação do outro em nossa casa, em nosso país, representa um perigo: o hóspede pode ser um ladrão ou um terrorista. Por outro lado, a hospitalidade é um imperativo ético e a chance de uma relação pacífica entre os homens. Mais que isso: a acolhida do outro é a condição da ipseidade, já que não há sujeito sem o reconhecimento do outro. A hospitalidade deve ser incondicional. Essa afirmação de Derrida incomoda: "Deve-se dar ao outro", diz ele, "a permissão de fazer a revolução em nossa casa". "Como assim?", diz o bom senso. "A hospitalidade tem limites!" Não, responde Derrida. "Se há hospitalidade, só pode ser incondicional. Não há hospitalidade condicional: se coloco condições ao outro que vem, ao que chega, não posso mais falar de hospitalidade. Mas, se a hospitalidade não pode ser senão incondicional, é preciso dizer, ao mesmo tempo, que uma hospitalidade incondicional é impossível, é o próprio impossível" (Spectres de Marx).

Como resolver, na prática, esse paradoxo? Trata-se de considerar o impossível como "talvez possível", de ter a hospitalidade absoluta como meta a ser buscada apesar de tudo e, nesse sentido, o "impossível" passa a ser condição do "possível". O impossível é a chance do possível, aquilo que mantém aberta a possibilidade. No caso das leis de imigração, trata-se de "negociar", de encontrar "a legislação menos pior". "Este é o acontecimento que é preciso inventar cada vez", diz ele em (Sur Parole).



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h09
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Derrida e Revista Cult* (cont)

A fraternidade
A fraternidade se liga, positiva ou negativamente, à hospitalidade. A fraternidade é um conceito suspeito, para Derrida, porque ela supõe a união dos "irmãos", dos parentes, dos próximos e, como tal, oferece o risco da xenofobia, do nacionalismo, do fechamento dos Estados, da guerra. Em Politiques de l'amitié (1994), ele explica por que esse conceito é suspeito: "A fraternidade se enraíza na família, na genealogia, na autoctonia." Ao mesmo tempo, a fraternidade é uma das respeitáveis divisas da República, a chance conquistada pela Revolução Francesa de uma relação mais digna entre os cidadãos. Assim como o conceito de "tolerância", o conceito de "fraternidade" é respeitável, mas insuficiente, porque marcado por uma tradição cristã que os associa à "caridade". Assim, a fraternidade precisa ser desconstruída e reinventada.

As leis
As legislações, que devem servir à justiça, mas não são a justiça, oferecem permanentemente o perigo do erro, da injustiça. Mas elas são a chance de se fazer justiça, na medida em que elas podem e devem ser constantemente repensadas e refeitas, deferidas e diferidas, perfectíveis. A justiça, esta é o indesconstrutível, o objetivo maior da desconstrução. Podemos dizer que a desconstrução, diferentemente da filosofia clássica, não é uma busca da verdade, mas da justiça (Force de Loi, 1994).

O segredo
O segredo é perigoso quando ele é guardado e preservado por organizações secretas e conspiratórias, que ameaçam a polis. O segredo contraria também o imperativo moral de nossa sociedade de dizer sempre a verdade, de trazer tudo à luz. Mas o direito ao segredo é também uma condição da democracia, e há muitas situações em que o segredo serve ao bem individual ou público. A questão do segredo é muito ligada a outra questão cara a Derrida, a da mentira, que também tem seus prós e contras, os quais devem ser repensados em cada circunstância.

As novas tecnologias
As novas tecnologias, da comunicação ou da pesquisa médica, implicam perigos éticos e práticos. A internet pode ser usada para veicular falsas informações, pois ela não é totalmente vigiada e controlável. Mas ela serve à democracia porque, nos países onde há censura, informações verdadeiras e úteis podem penetrar clandestinamente através dela. Da mesma forma, a manipulação do genoma humano pode ser usada para fins perigosos, como a eugenia, ou para efeitos ainda imprevisíveis. Mas não se pode deixar de dar uma chance às novas descobertas da ciência na busca de cura para várias doenças. Portanto, esta é também uma questão de dupla face, ou duplo gume.

Esses são apenas alguns exemplos do modo como opera a desconstrução diante das questões que nosso tempo tem de enfrentar. A desconstrução não destrói a questão, não a anula num "nem isso, nem aquilo". Ela põe em evidência a necessidade de refletir sobre elas, uma reflexão incessantemente recomeçada segundo as circunstâncias.

As reflexões de Derrida levam a freqüentes aporias, isto é, a um "conflito entre opiniões contrárias e igualmente concludentes, em resposta a uma mesma questão". E, muitas vezes, a um double bind, isto é, aquilo que acontece quando "relações básicas e importantes são cronicamente sujeitas a invalidação através de uma comunicação paradoxal" (teoria de Gregory Bateson). Esse caráter paradoxal do pensamento de Derrida foi apontado como "irresponsável", já que ele não responde categoricamente a nenhuma questão levantada. Mas o double bind não pede para ser resolvido dialeticamente e, assim, superado, mas para ser interminavelmente reexaminado.

Quem teve a sorte de conhecer Jacques Derrida, pôde ver em sua própria pessoa e seu modo de ser essa preocupação ética sem descanso. Havia nele, ao mesmo tempo que uma cordialidade, uma hospitalidade, uma inteligência poderosa, uma fragilidade, um medo, uma inquietação constante com a responsabilidade de suas posições. Roland Barthes viu muito bem essas características do filósofo quando disse dele: "Sua solidão vem daquilo que ele vai dizer."

Derrida foi o contrário de um apolítico: foi um corajoso e constante re-pensador da política. Não era um utópico, no sentido de um idealista apenas expectante; mas um ativista do pensamento, um analista agudo do presente e um antecipador do futuro. Alguns o acusaram de niilismo. Ele era, pelo contrário, fundamentalmente otimista. Entre o perigo e a chance, apostava na chance.

A desconstrução não é um sistema de pensamento em que possamos nos apoiar, ou um método que possamos aplicar. As propostas de Derrida são um convite à travessia do abismo na corda bamba, sem rede de segurança. Mas quem pode hoje, honestamente, garantir segurança na travessia dos tempos? É preciso coragem para sair do lugar, para escolher o que abandonar e o que conservar na viagem, porque sem abandono não há renovação, e sem memória não há História.

Leyla Perrone-Moisés é professora emérita da USP, autora de vários livros, entre os quais Altas Literaturas e Inútil Poesia (Companhia das Letras)

*artigo publicado na Revista Cult



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h07
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Entrevista com Robert Fisk*

Segue uma entrevista com o correspondente de guerra Robert Fisk. A fonte é a Revista Trip.

Quando o senhor decidiu virar jornalista?
Quando eu tinha 12 anos só passava um filme por semana na TV. Um dia vi em nosso televisor preto-e-branco um filme chamado Correspondente Internacional, do Alfred Hitchcock. Era a história de um jornalista do Daily Globe, que é enviado para a Europa na iminência da segunda guerra. Ele vê o assassinato de um ministro europeu, é perseguido por espiões alemães, dá cobertura para agentes ingleses, fica com a mulher mais linda do filme. Para um garoto de 12 anos parecia um trabalho e tanto, até porque ele continua vivo. Daquele dia em diante eu quis ter essa vida excitante – e ser pago pra isso, é claro.

Seu pai gostou da idéia?
Não. Ele queria que eu fosse advogado, médico. Ficou muito chateado. Ele comprava o Daily Telegraph, que era um jornal de direita de Londres. Eu costumava ler de cabo a rabo todas as reportagens, correspondente de Moscou reportando o congresso comunista, a morte de Stálin, as notícias do Oriente Médio, é claro. Quando eu estava no segundo grau, sabia muito sobre as grandes guerras e estava totalmente obcecado pela idéia de me tornar jornalista.

E como foi o começo da carreira?
Praticamente implorei ao Times para me mandaram para a Irlanda. As batalhas pela independência estavam esquentando. Depois fui mandado, em 1974, para cobrir o estouro da Revolução dos Cravos em Portugal. Por isso eu sei ler português muito bem. Então, um belo dia, o correspondente no Líbano casou-se com uma mulher bilionária que não estava disposta a viver no meio da guerra civil. Ele me propôs o cargo no Oriente Médio. Me senti como o rei Faisal quando lhe ofereceram a Jordânia. "Sim!"

Você não teve medo?
Quantos anos você tem?

28.
Eu tinha acabado de fazer 29. Com essa idade você não pensa que vai morrer. Até hoje a maioria das pessoas acha que vai viver para sempre. E era uma proposta tão boa, do melhor jornal na época, a melhor história do mundo. Mas quando cheguei lá vi que não era divertido, era uma guerra de verdade.

E como se sentiu quando chegou lá?
Eu era jovem o suficiente para manter o otimismo sempre. Nos primeiros anos eu vi no chão a invasão soviética no Afeganistão, os comunistas combatendo os mujaidim (guerreiros santos, a base do Taleban). Estava no Irã na Revolução Islâmica, nos primeiros tiros da guerra Irã-Iraque, estilhaços voando, gente ferida para todo lado. Parecia que eu vivia uma vida bem charmosa, nada me atingia, nenhuma bala. E percebi naquela época que eu podia escrever muito bem.

Não mudou muita coisa de lá pra cá...
Eu tive uma namorada jornalista que me dizia: "quanto mais guerras você cobre, mais aprende a sobreviver. Quanto mais você vai para guerras, mais chance tem de morrer". É uma equação difícil de resolver.

Você tem algum prazer no risco? Em ver as bombas e
os tiros?
Churchil dizia que nada é mais satisfatório do que atirarem em você e você não tomar o tiro. Olha, quando eu estava no sul do Líbano e a guerra estourou, usei meu medo para observar. Os aviões, as bombas, de onde os perigos vinham. Se você for atingido por acaso não pode fazer nada, mas se você não entrar em pânico em uma guerra tem que usar o cérebro e prestar atenção. Eu sempre volto a salvo para Beirute e escrevo histórias das pessoas que estão sofrendo, dos horrores. E claro que celebro no jantar que voltei vivo, mas isso não significa mesmo que eu tenha prazer no risco.



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h18
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Entrevista com Robert Fisk (cont)

Qual o prazer, então?
Eu não faço só jornalismo, escrevo livros de história. E o jornalismo se confunde com isso. Eu te digo do que eu gosto mais. É quando vou para a casa que tenho na Irlanda, paro na frente de tudo que fiz, vou repassando para escrever um livro. Quando se trabalha muito como eu, todo dia, das 8h às 19h, você acaba não juntando peças importantes da situação como um todo. Quando eu tenho tempo e posso olhar com calma meus artigos, minhas anotações, livros, me dá um estalo.

Qual é a parte mais difícil do seu trabalho?
Não morrer. Se tem que ir ao front, sua função é reportar. Se você morrer é inútil, não vai contar a história. Um dos grandes problemas que eu vi na Guerra da Bósnia é que muitos correspondentes vieram de Nova York, de Londres, e não do Oriente Médio. Nunca tinha visto guerra. A experiência deles era a TV e Hollywood. E quando chegaram começaram a morrer. Morreram 38 jornalistas em 18 meses. É a mesma experiência que nossos presidentes e primeiros-ministros têm hoje. Nenhum líder ocidental de hoje esteve em uma guerra. Esses caras não sabem da responsabilidade de mandar os garotos. Tony Blair acha que é televisão, entende? Bush acha que é cinema. Ele até poderia ter ido ao Vietnã, mas fugiu com a ajuda do pai. Gente que vive no Oriente Médio, que viu diferentes guerras, aprende a evitar o perigo.

Como o senhor vê a cobertura de guerras hoje em dia?
Eu me lembro de quando os jornalistas americanos chegaram em Bagdá em 2003. Eu estava perto dos iraquianos, onde as bombas caíam, não estava acompanhando as tropas "aliadas" como quase todos. E aqueles jornalistas todos com cabelo cortado como soldados, usando algum uniforme militar, fumando cigarros e fazendo cara de mau. Era tão nítido que estavam representando um papel, algo que haviam visto na TV. É mais seguro? Sim. Mas não é o que eu chamo de jornalismo.

O que é jornalismo para o senhor?
Contar o que realmente está acontecendo, mas com uma premissa básica, que é desafiar a autoridade. Sempre, é o mais importante. Hoje a imprensa se acovardou ou se aproximou demais dos governos para questioná-los de fato. Os jornais repetem a retórica dos governos ocidentais sem o menor senso crítico. Dessemantizam tudo, distorcem a linguagem para que ninguém possa discordar. Chamam o muro que Israel construiu de cerca, os assentamentos de territórios disputados. E a palavra “terrorismo” então! Eu jamais a usaria no sentido comum.

Por
quê?
Terror, terror, terror! Para que serve isso? Para gerar medo. E criar uma divisão definitiva de bem e mal. E vira a permissão moral para a violência de Estado de um modo vergonhoso. Quando se combate o terror vale tudo. Podemos torturar, matar crianças, mentir, esconder, manter Guantánamo. Porque estamos combatendo o “terror”. Ora, sejamos claros... o Ocidente fez atrocidades com o Oriente Médio durante tempo demais. E, pela nossa completa ignorância histórica, querem nos convencer de que eles nos odeiam porque somos livres.

O senhor está
há 31 anos, mais da metade da vida, em Beirute. E é considerado um dos mais ferozes críticos da política do Ocidente. Ainda se sente um ocidental?
Ah sim! Ainda me sinto com 29 anos! Ainda estou no mesmo emprego, no mesmo prédio, vendo os mesmos aviões. Um salário um pouco melhor... Claro que sou um ocidental.



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h17
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Entrevista com Robert Fisk (cont)

Mas não concorda muito com a visão do Ocidente
Eu leio vorazmente livros de história, quase todos escritos por ocidentais, e não acredito nesse ridículo “conflito de civilizações”. Isso é pior que infantilismo, é coisa de bebê mesmo. O que me faz sentir como não-ocidental é ler gente falando em confronto de civilizações. O que eles escrevem não parece ter relação com o mundo em que vivo. E uma das razões pelas quais eu sou mais criticado nos EUA e na Europa, e escuto isso toda vez que dou palestras, é que não escrevo o que as pessoas querem ler. Eles querem saber do conflito de civilizações.

Se não é um confronto de civilizações, o que é a guerra contra o terror?
É sobre controle de petróleo e propriedade. Ponto. Não estamos no Iraque pela democracia, quem acredita nisso? Se o produto de exportação do Iraque fosse aspargos ou batatas não estaríamos lá. É uma guerra que serve para dar mais contratos para as companhias ocidentais.

Religião não tem a ver com isso?
Claro que há duas religiões por trás que se digladiam há tempos, mas não é o que importa. Só serve para perpetuar esses preconceitos terríveis de árabes e ocidentais. Nesse sentido o Bin Laden e os sociólogos americanos são exatamente a mesma coisa. Querem enxergar tudo como uma grande cruzada, uma briga do bem e do mal. Claramente Bush e Rumsfeld são pessoas amorais. Eles tratam religião como tratam o petróleo, são artifícios para conseguir o que querem.

Falando em Bin Laden, o senhor o entrevistou três vezes. Como ele é?
Ele tem uma tremenda autoconfiança, é impossível ter uma discussão com ele porque ele está com a verdade. Igual ao Bush. Ele se enxerga como uma figura religiosa.

Ele tentou te convocar para uma entrevista depois do 11 de Setembro?
Sim, no Afeganistão. Ele queria me encontrar, mas eu tinha outros compromissos. Robert Fisk não é cachorrinho. Eu não apareço quando alguém estala os dedos, tenho minha agenda, minhas prioridades, e Bin Laden não é uma delas. Depois ele se referiu a mim em vídeos. No que foi divulgado antes da última eleição americana, disse que se a Casa Branca quisesse saber o que realmente acontece no Oriente Médio deveria ler Robert Fisk. Bem, obrigado, Bin Laden, mas eu poderia ter passado sem essa no currículo. Tipo: “Eu leio o Independent. Assinado Osama Bin Laden”. E Zawahiri deu uma declaração há pouco tempo dizendo que eu deveria sair de cima do muro e me tornar um muçulmano. Bem, senhor Zawahiri, deixa que eu decido minha religião, pode ser?

E o Bush, o senhor já entrevistou?
Não. Não tenho interesse nenhum. Já o vi de perto em conferências, mas não teria nada para perguntar para ele. Iria mentir em tudo mesmo.

Já foi ameaçado por governos ocidentais de alguma forma?
Bem, o gabinete britânico já me concedeu o título de "jornalista mais impreciso da Inglaterra". Isso vindo de um primeiro-ministro mentiroso deve ser um elogio, eu ficaria triste se ficasse de fora da lista. Mas ameaças de governos não. Eles não seriam bobos de fazer algo comigo. A ameaça vem de outro lugar.

De onde?
Eu te digo. Há uns anos o ator John Malkovich respondeu a uma pergunta em uma palestra, dizendo que gostaria de me dar um tiro. Depois me chamou publicamente de um nojento anti-semita. O caso é que na internet, algo que não uso, blogs começaram a aparecer dizendo que Malkovich havia dado a dica. Fotos minhas com sangue no rosto começaram a ser publicadas. Só precisa de um cara com uma arma para me matar. E lá isso não é difícil... Então acho que a maior ameaça que sofro são essas da internet, do John Malkovich. Não as dos Blair e Bushes.



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h15
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