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Vinhos da Casa



Ratos jogam xadrez na escuridão

No porão em que habito não há luz. Um painel imenso da Coca-Cola joga seu vermelho por algumas frestas da pequena janela e ilumina umas sombras durante a noite. Isso é mais do que suficiente para eu achar a cachaça e ler uns livros durante as madrugadas insones. Um séquito de ratos faz companhia de vez em quando. Passam pela sala em silêncio, espreitando se eu me movo da poltrona em sua direção. Eu me movo pouco. Fico sentado aqui durante horas. O maço, o cinzeiro, a bebida, uma caneta e folhas em branco são tudo de que preciso. Os ratos vão até a cozinha em busca de farelos. Quando encontram algumas sobras de pão, voltam pela sala rolando os mínimos pedaços. Há trinta anos que não saio daqui. Uma anã boliviana traz a comida e as compras a cada três dias. Chega com seu sorriso meio desdentado. Coloca os pacotes no chão e depois vai guardando os alimentos e os maços de papéis. Um pouco de arroz, feijão e muitos vegetais. Sentamos ao redor de um caixote de madeira e comemos. Ela não é bonita. Mas tem bunda. E quando está solitária fode comigo. A foda não é muito boa. Mas, como disse, ela tem bunda. Dou alguns trocados em retribuição. Uma vez ela tentou mencionar a idéia de morar comigo. Cortei o papo na lata. Ela sabe que não sou pra isso. Uma herança de um tio distante paga minhas contas. Não é muito, apenas o suficiente para o que preciso. Não ter de trabalhar permite que eu continue escrevendo o grande romance de todos os tempos. Ele já está quase pronto. Fico umas quinze horas por dia trabalhando na literatura. Algumas palavras são trocadas, novos sentidos vão surgindo. É uma história maravilhosa. Narra a incrível maneira pela qual me tornei o maior sábio do mundo. Faltam apenas sete capítulos. Por enquanto, fico contente com os pequenos ratinhos que me fazem companhia. Eles estão cada vez mais inteligentes. Há três semanas pegaram um retrato meu e levaram para seu buraco. Do buraco começaram a sair desde então alguns feixes de luz. Eles devem ter construído um altar para mim. Ontem mesmo perdi duas partidas de xadrez para um deles. É a falta de prática. Escrever consome todo o meu tempo e não posso permitir que uma derrota para um roedor me desequilibre a ponto de interromper a literatura para treinar novas jogadas. Ele ficou feliz com a vitória. Tão feliz que há dois dias percebi que meu maço de papéis diminuiu. Hoje pela manhã fui acordado por alguns ruídos que pareciam ser de lápis tocando folhas. Ele deve ter começado a escrever um romance. Talvez pense que pode ser melhor do que eu. Que fazer? Os ratos sempre tiveram mania de grandeza. Eu fico em meu canto escrevendo como um louco. Não há motivo para competir com um mísero ratinho. O cheiro de suor já está quase insuportável. Mas é impossível parar para uma ducha. O mundo é mais importante do que minha higiene pessoal. Ao meu lado há algumas garrafas cheias de mijo. É a maneira que encontrei para não abandonar meu posto. Basta colocar o pau na boca da garrafa e pronto. Além do quê, dessa forma também sinto um pouco de prazer. A cachaça é amarela e de vez em quando confundo as garrafas. Na primeira vez quase vomitei. Agora já me acostumei e estou quase preferindo o sabor. Quando terminar a grande obra do milênio, tomarei um longo banho, cortarei o cabelo, farei a barba, pagarei a conta de luz e darei um trato em meu porão. Com a publicação da obra-prima, todos entenderão realmente o que é essa coisa que chamam de vida. E terei então a impressão de que falta muito pouco para eu ser feliz.

 

TRAILER DA PEÇA SINFONIA PATÉTICA



Escrito por Cesar Ribeiro às 10h35
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As mortes que me carregam

Eu era um pivete folgado de uns 12 anos. Já sabia o que era morte depois de uma vizinha morrer de câncer e do pai de um camarada ser assassinado. Também sabia que o humano não era exatamente um primor de sensibilidade. Mário, o pai do meu camarada, era um motorista que teve seu táxi roubado por um passageiro. Foi levado até um estradinha, com revólver apontado pra cabeça, amarrado em uma árvore e deixado lá no matagal, mas não sem antes ter um saco plástico colocado na cara. Resultado: morte por sufocamento. Como quase sempre acontece, nenhum culpado foi descoberto. Mas, como ia dizendo, eu tinha uns 12 anos. Morava numa ruazinha no Rio de Janeiro ao lado do Palácio do Catete, aquele em que Getúlio meteu um chumbo na carcaça. Ao menos é o que reza a lenda. Um telefonema para o meu velho no começo da semana: “Sua mãe está passando mal e foi internada”. Minha avó tinha diabetes, mas tirando os problemas comuns do ser humano, fadado a envelhecer e apodrecer, ela tinha boa saúde. Como o alarme não gritou alto, numa daquelas de está passando mal mas nada profundamente grave e irreversível, ficamos de vir para Sampa no fim de semana. Dois ou três dias depois, um novo telefonema. Desta vez a voz que falava não tinha como amenizar a situação: “Olha... eu queria... Morreu. Ela morreu.” Houve um silêncio geral em casa. Em seguida, meu velho começou a chorar. Foi a primeira vez que vi o velho chorando. Normalmente a gente tem o pai como super-herói, e como em qualquer filme norte-americano um herói nunca chora. Deve segurar o tranco ainda que a bomba estoure na mão. Mas ele chorava. E minha mãe chorava. E meus brothers choravam. E a voz do outro lado da linha também chorava. Eu olhava aquilo tudo e não chorava. Dificilmente choro, é quase impossível. Desde que me conheço por gente — ou seja, desde que saí da fralda e aprendi a dizer não —, acho que chorei umas duas vezes. A segunda foi quando uma ex-namorada, em meio a uma discussão, deu uma bofetada na minha fuça. Não chorei por ter recebido a pancada, mas depois de ter revidado. A história é longa, mas em resumo nós estávamos bebendo em um bar e há um tempão era só bateção de boca. Até o momento em que ela pegou meu copo e jogou a cerveja na minha cara. Puta desperdício de álcool. Não sei o que teria feito se ela não tivesse saído andando depois, mas ela saiu e eu fiquei parado no boteco olhando minha camisa molhada e pensando se a cena tinha realmente acontecido ou se era um delírio meu. Pedi outra cerveja e continuei bebendo. Uns dez minutos depois ela voltou, pediu desculpas e aquele blábláblá todo. Tentei explicar que a bebida é sagrada e que esse tipo de cena não pode acontecer. Não lá. É preciso respeitar o altar de cada um. Ou não. Mas como nem todo filme é produzido em Hollywood, a discussão recomeçou. E aí que vieram os tais tapas. Mas eu estava falando da morte da minha avó. A gente sabe que o mundo é um caminho sem volta e o cheiro do ralo tá em todo canto. Todo mundo sofre. Basta retirar a maquiagem que você enxerga a dor. E eu não queria ser mais um a jogar na fuça do outro a minha merda. Ninguém vai fechar o buraco no estômago com concreto e um ombro amigo não significa muito nessas horas pra mim, apesar de sempre estar ao lado quando precisam. Ok, quase sempre. Ok, ok, de vez em quando. Bom, então a gente veio pra Sampa. Tudo às pressas. De avião. Era a primeira vez que voava. De um lado era a cara da avó morta na cabeça, do outro as nuvens e a cidade distante. Como de costume, vieram então o velório e o enterro. Velórios são tristes. É de sua natureza, foram feitos para isso. É o tiro final. Serve pra gente ter a consciência de que é realmente um fim. Juntar a comunidade para celebrar a despedida é um dos eventos mais antigos da humanidade, que dizem vive em coletivo em busca da harmonia. Sei lá, é o que dizem. Terminada a reunião de familiares, amigos, parentes próximos e distantes, tios de Natais e afins, um pouco de terra foi jogado ao túmulo e o coletivo saiu de cabeça baixa, em pranto. Já em casa, no mesmo dia, todos repassaram em roda as virtudes de minha avó, a falta que ela faria... buscaram consolo uns nos outros. Eu me isolei, como é meu costume quando sofro um baque. Então peguei um rádio e fui pra frente da minha casa, na calçada. Ela estava vazia. As pessoas já estavam dentro de suas casas. Liguei o som no máximo volume e fiquei sentado no meio-fio. Para mim, a forma de lembrar da minha avó era essa. Ela era bem próxima da gente. Desde que nasci até os dez anos, quando mudei pro Rio, meus velhos, eu e meus brothers morávamos numa casa de frente para a rua, enquanto meu avô e minha avó moravam na casa dos fundos. Ou seja, nenhuma palavra de ninguém poderia resumir o que sentia por ela. Aliás, é sempre assim: nenhuma palavra pode realmente significar o que pensamos. Uma vizinha — meu bairro era do estilo antigo, com aquele gênero de vizinhança em que os arrotinhos brincam na rua, as famílias se conhecem, freqüentam uns as casas dos outros —, madrinha de minha irmã, passou na rua. De fininho, sem querer assustar, ela se aproximou. Tinha a cara triste. Ela também era bem chegada na minha avó. Murmurou em meus ouvidos algo como se eu não queria desligar o som. Perguntei por quê. Ela me explicou que, como minha avó tinha acabado de morrer, não era legal eu deixar o som ligado daquele jeito. Aí ela falou algo que tento entender até hoje: “Eu sei que não é isso. Sei que você ama a sua avó. Mas as pessoas não entendem. Vão pensar que você não está sentindo nada”. Eu desliguei o som. Ela se afastou. Era gente boa pacas, daquelas de estar ao lado sempre que alguém precisa. Mas todo mundo tem suas falhas. Naquele silêncio, as pessoas trancadas em casa, a escuridão chegando, o buraco foi ficando maior, cada vez maior. Minha avó havia morrido e eu tinha acabado de aprender que até para velar alguém há uma forma estabelecida. Falam que a gente aprende conforme os dias. Aprende muitas coisas bacanas. Mas também aprende muitas coisas que são uma merda. A gente aprende principalmente a se defender do mundo. E essa é uma punhalada sem volta. Depois da redoma construída, nenhum canhão dissolve. Terminadas as cerimônias e apaziguadas as dores, havia o caminho de volta ao Rio. A vinda para Sampa foi uma merda. Andar de avião naquelas condições não estava nos planos de nenhum moleque vindo de família pobre que subiu de vida. Mas havia a volta. E eu só queria ver as nuvens de novo. Sair daqui, deste plano de terra que enterra tudo. Corpos, desejos e mágoas no mesmo pacote. Mas meu velho puxou da carteira os bilhetes de ônibus. Então eu chorei pela primeira vez.

 

TRAILER DA PEÇA SINFONIA PATÉTICA



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h39
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Sing a lullaby and fuck a little more

Imagens na cabeça. Ele traz um retrato desbotado de James Joyce no colo e uma flor morta na mão direita. Perambula em uma tarde escaldante pelos parques. Procura um banco para sentar. Não um banco qualquer jogado nas sombras. Mas o banco em que ela estará. Ouviu falar do meteorito que transformou gnomos em chupa-cabras. Não concordou com a absolvição do Renan. Acreditou que todos os políticos seriam cassados. Viu o rei de Espanha dançar rumba na Casa Branca. Sabia que o poppapa compraria o Prada vermelho. Você é quase um gênio, balbuciou numa noite de chuva um amigo chapado. Ficou triste pacas. Por que quase? Sou um gênio. Só que não entendeu quando viu na Alameda das Solidões um casal de ninfetas se beijando. Contra-senso. A palavra grita sempre. Ele sabe. Manchetes nos jornais. Locutores anunciam a promoção de vibradores top de linha nas Casas Bahia. Free sex for all. Um músico sexagenário toca uma nota numa flauta nova. O som é chato. Coisa de índio alemão. Desses que vendem bijuterias no Iguatemi. Ela chega com seu vestido branco. Cena de Sonhos de Kurosawa. Em lugar de neve o suor escorrendo pelo rosto. Ele quer entregar o retrato do Joyce, mas ela prefere a flor morta. Sempre achei bonita a morte, balbucia em grego futurista. Um gato azul passa brigando com as pulgas. Nacos de sangue tingem o vestido de vermelho. Ela sorri. Cheira a flor made in China enquanto atravessa uma lâmina fria nos pulsos. Mais sangue no antigo vestido branco. Eles olham a tarde que começa a ir embora e pensam que a lua será bela hoje. As bombas, meu bem, elas já estão armadas e agora é só apertar o botão. Sing a lullaby and fuck a little more. Um pedaço de ombro aparece. A outra alça do vestido também cai. Agora eles estão nus. O quadro é mais ou menos o seguinte: dois pelados no parque, sangue caindo dos pulsos, uma flor morta na boca da mulher e um retrato de Joyce no meio-fio. Cavalos passam sorridentes, conduzindo turistas neanderthais. Chicotadas. Camelôs perguntam se o casal não quer camisinha. Pague uma leve três. Havia uma prece jogada na esquina conduzindo os fiéis a um paraíso de fio de sutura. Tudo que se feria tinha cura. Buraco fundo na alma era resolvido com aguardente de gema de ovo. A palavra estava pregada na estante. Só o grande membro salva, só o grande membro cura. Um pau de quinze metros era o altar e o perdão vinha com quinze penetrações duplas depois do almoço e dezessete masturbações após o jantar. Engolir o esperma não faz bem, minha querida. Nascem filhos pela boca, o que, pensa comigo, deve ser muito doloroso. Depois, com essa sua cárie no quadragésimo primeiro, é melhor cuspir. As câmeras registravam tudo para o programa dominical. Mamutes deitados na sala viam o casal trepando enquanto o sangue caía no banco do parque. A foda é fantástica. A mulher era contorcionista. O cara, um marombado de academia grã-fina. Puta audiência! Que Boca versus São Paulo o quê?! Saca só o Ibope. Ao mesmo tempo em que dava uma estocada funda na vagina, o dedo indicador entrava no cu e ia abrindo caminho. Molha o dedo com cuspe para não machucar. O movimento se repetia. Repetia. Repetia. Repetia. Repetia. Que porra é essa?, grita um produtor. As luzes se apagam, a cidade escura. Em meio a gritos, palavrões e drops Kids hortelã, os mestres da mídia começam a desarmar seus cabos luzes microfones. País de merda, país de merda! Liguem para o presidente! Xinguem o cardeal. Chamem a SuperVulvaAmarela. Carros fechados acendem os faróis para sair do parque. The show is over. Disparam em alta velocidade sem reparar pequenos flashes em um casal nu e morto no banco do parque. Amanhã o lixeiro passará e recolherá a sujeira. That’s all, folks!

TRAILER DA PEÇA SINFONIA PATÉTICA



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h53
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Rebanho cego de pastores mudos*

Vivemos em um mundo cercado de deuses. Não o deus barbudo sentado em um trono qualquer dirigindo os destinos da humanidade, mas a necessidade de uma referência primeira que sirva de padrão. Recriamos essa vontade do uno em todas as esferas sociais: no trabalho, na casa, na política... Há sempre os líderes. Se você olha para o trabalho, verá uma convenção de chefes. Na família há a divisão matriarcal ou patriarcal. Na igreja, o pastor do rebanho a ministrar seus valores.

Há algumas conclusões que podem ser tiradas desse fato: a primeira é que o ser humano simplesmente não está preparado para viver em coletividade, e por isso precisa nomear alguém que sirva de juiz às causas e impeça o conflito de opiniões. A segunda é que, para poucos que têm necessidade de domínio, e conseqüentemente buscam a liderança, há uma infinidade de pessoas que precisam ser lideradas, tentando com isso a minimização de responsabilidades no ambiente em que são "subalternas". A terceira é que nossa comunidade, antes de reconhecer o mérito, reconhece o nome - ou o título -, e por conta disso precisa de alguém que lhe sirva de exemplo para saber como agir e muitas vezes como pensar.

No teatro esse valor também está enraizado, claramente na figura do diretor, um título dado àquele que dita os caminhos a seguir. Como em qualquer área profissional, há o diretor tirano, que utiliza seus atores como marionetes, e aqueles que dão mais abertura à criação dos atores, querendo a participação destes no ato da criação.

Atualmente conhecido como Processo Colaborativo, essa forma de fazer arte tem como foco entender o funcionamento de um coletivo de pessoas de uma maneira diferenciada, em que as responsabilidades são divididas entre os membros e na qual as opiniões são colocadas na balança para gerar um espetáculo.

Nesse processo, a visão de teatro continua sendo a comunicação, mas não no sentido de que há apenas um artista que coloca suas idéias, mas um coletivo que discute a sociedade e procura um consenso para emitir uma opinião fechada, no caso chamada de peça de teatro. Essa tendência atual representa um ganho na área da criação, uma vez que, no teatro "antigo", o diretor colocava em cena suas fantasias e cabia aos atores representá-las, limitando ao trabalho da interpretação a função do ator.

Ora, o teatro é feito de atores, não de produtores, iluminadores, diretores, cenógrafos ou dramaturgos - o que obviamente não deve limitar o caráter estético/dramático da obra. Em uma atualidade em que qualquer Caçapava Funkadelic que aparece em novelas bizarras é chamado de ator, ou então a gostosinha do comercial de cerveja é reconhecida como modelo/atriz/garota de programa nas horas vagas, deixar ao ator somente a representação de um papel é tirá-lo de sua aptidão à arte.

Arte, política, jornalismo, publicidade, filosofia... tudo se resume à palavra opinião. O ser humano é opinião. E, por mais que alguém venha dizer que há uma energia verde-abacate circulando através do tempo e dando uma "alma" ao dito cujo nascido, o que faz a individualidade é o conjunto de atitudes e pensamentos.

Agora se vê as gentes finalmente bradando contra a mídia e, como sempre, abestalhadas diante das maracutaias políticas, dos acidentes aéreos, das inúmeras guerras, da violência nas cidades e do aquecimento global. Mas, a individualidade pouco faz além de reclamar e esperar que seus líderes tomem atitude diante da estranheza do mundo.

Está mais do que na hora de repensar essas estruturas sociais arcaicas e o próprio comodismo humano, ou continuaremos a bradar impropérios nas poltronas escuras sem perceber que agimos como rebanho cego de pastores mudos.

 

*artigo publicado no Guia da Semana



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h11
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Análise sexual de Beltrano & Jurema



Este texto é das antigas e já foi encenado na peça Desconstrução, uma coletânea de crônicas apresentada lá na nossa temporada no Centro Cultural São Paulo.

Sabadão pós-churrasco, em um dia qualquer de uma época qualquer, Beltrano, devorador de belzebus e demais demos, ficava perplexo diante da sua companheira eletrônica ao assistir ao incessante desfile de silicone e demais criaturas clonadas de uma perfeição rarefeita. Analisando as propriedades dialéticas da conjuntura bundística de loiras, morenas e demais zubinzarretas, pôde enfim perceber a sensação de solipsismo ao sentir, entre cachaças e outras antas alcoólicas, a Jurema, mulher sua de décadas atrás, acariciar os cabelos pretos de sua semicareca enquanto o desfile bundístico prosseguia, canal após canal, aprisionando seus jatos masculinos ao sofá e trazendo-lhe a impotência latente.

A bunda loira tinha um quê de pensante, daquela que se faz estúpida para entre arranhões e demais cicatrizes arrebatar o gozo em análises freudianas, recordando as nádegas maternas ou paternas ou de algum outro tipo de cachorro equivalente; já a bunda morena, tradicional e constante, era do tipo desespecial, conhecida, que refletia no homem a segurança de anos de conhecimento das bundas da terra-pátria; a bunda negra, cor idêntica à sua e à de sua Jurema, trazia pensamentos futurísticos e a lembrança de alguns passados próximos, quando ainda encontrava satisfação na traseira patroística e esperava, mesmo em meio aos mecanismos anais, que algum arrotinho nascesse e lhes trouxesse nessa filiação um novo enlace; mas a ruiva... a bunda ruiva era um mistério.

Já havia deflorado bundas argentinas, negras, judaicas, masculinas, nonagenárias, muçulmanas, sudanesas e outros pagodes. Mas, ruiva? Entre suas comilanças analzísticas não contara nenhuma ruivice. E agora, frente à amiga eletrônica, babá de plantão nas horas de desespero e impotência, desfilava frente a seus olhos e membros e ombros e mãos a ruivice espantosa da nádega fogosa.

Como poderia, entre as dobras do corpo, os cabelos raros, a face maltratada de cavalo do salário mínimo, possuir alguma anca do naipe daquela ruiva que, entre olhares de milhões de telemasturbadores, remexia suas qualidades consolidadas? Em empíricas análises filosofais, lembrara-se que entre sombras e nuvens de uma tempestade noturna qualquer pensara na qualidade das nádegas humanas que, em meio às sociologias, antropologias, psicologias e outras demagogias divinizatórias, construíram do caráter bundístico um elemento reconhecidamente qualitativo para a filosofia nacional. Pensara na época que seria apenas o padrão da nação: a bunda determinava a face do cidadão.

Perguntou-se se tinha cara de cu, se todos realmente achavam que o sentimento de potência sexual traria o sentimento de potência humana. Foi quando, para seu espanto, reconheceu que o sexo com Jurema, que havia inexplicavelmente multiplicado de qualidade e quantidade, fazia-lhe homem. E reconhecendo-se homem sua estima de humano ganhava os céus. Era homem. Seu mastro ostentava-se ao vento. A patroa Jurema gostava das noites. Ele trabalhava. Recebia o mínimo do mês. Comia farelo de pão e bebia cervejinha no fim de semana. Passeava no Ibirapuera. Assistia aos programas, recebia bronca do patrão, carimbava as fichas maquinalmente, pegava ônibus lotado com cheiro de suor gentístico, acordava cedo. Mas toda noite lançava o leite no ventre na patroa quente.

Mas hoje. Hoje ficou para ontem. A potência desistia dele. Aquelas ancas desfilantes eram desconhecidas, despossuídas por ele, e nunca poderia, em meio aos seus disformes dentes e 45 anos de bode excluído, padecer no paraíso anal das ninfas de auditório. Aquilo empalidecera o suor noturno com Jurema, as noites eram sem graça e gozo, nenhum gemido se ouvia há meses, e Jurema chorava sozinha quando, cansado do trabalho, o analisador bundístico roncava antes que pudesse se elevar qualquer toque feminino. Mas hoje, com a cerveja na barriga, quem sabe o maridão poderia dar conta do recado e enviar o jorro pastoso ao bucho desejoso. Então Jurema, negra fogosa desfogada pelo marido broxante, acariciava a careca dele, esperando a ereção mostrar-se em meio à calça apertada. Beltrano apenas olhava a ruiva mobilizar suas nádegas para as variáveis do espaço. Impressionante as possibilidades de movimentação para a venda do patrimônio bundístico. Sua renda era a traseira, o sustento de seu aluguel e de suas viagens à Europa. Beltrano olhava a ruivice ganhar o pão de cada dia, enquanto Jurema, querendo ganhar o pau de cada noite, tentava invisíveis carinhos.

Foi quando, esquecendo-se do mundo das coisas e das coisas do mundo, esquecendo-se da esposa e do restante de seu corpo, Beltrano conduziu a mão direita ao pênis e, sem olhar ao redor nem se dar conta da mão feminina sobre a cabeça, masturbou a cabeça mais importante do momento com movimentos desesperados. Jurema, antes espantada e depois semi-excitada, buscou então, como possibilidade única de sua boca, recolher algumas gotas de esperma destinadas à ruivice eletrônica. E sorriu, feliz pelo retorno da sexualidade matrimonial.



Escrito por Cesar Ribeiro às 10h28
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Comeu meio quilo de fubá sabor tutti-frutti e vomitou quinhentos e trinta e sete chicletes Adams embalados pra consumo

 

Fala que eu te escuto. Não quero saber se a matemática rola na cachola à meia-luz enquanto uma trepada inatlética exala odores flácidos na madrugada fria. Viu a foto do Santoro? Saca a espingarda e canta uma rumba meio axezística. Nada de esperma na poltrona, querida, que a empilhadeira já levou os móveis e só sobrou o abajur néon. Isso, a língua. Então eu vi no programa da tevê que aquela top da Noruega comeu meio quilo de fubá sabor tutti-frutti e vomitou quinhentos e trinta e sete chicletes Adams embalados pra consumo. Já foi contratada como diretora de produção de uma multi. Sabe aquilo que você faz com o indicador esquerdo? O jantar. Eles vão chegar às 10. Dá tempo ainda. O mercado tá aberto. A gente passa lá e compra uma pré-cozida pra jogar no micro. Coisa de minutos. De quatro agora, isso, de quatro. A gente devia olhar mais para o martelo e esquecer do prego. O corpo foi pra madeira e a gente só olha o metal. Ele devia ser negro, não acha? Não, não fiz catecismo. Fora que a América continua um blues sem noite. Mas a gente compra a passagem e foge. Um passaporte falso. Só fazer cara de paisagem. Eu vou gozar. Não quer que eu chame um táxi? Ele pode ficar esperando na esquina. A gente esquece o jantar e cai fora agora. É só seguir uma trilha qualquer. Que acha? São trinta minutos de silêncio e um relógio na parede. Os segundos ecoam. Em algum momento eles vão chegar. Eu sei que esse cheiro. Querida, pára com isso. Você sabe que eu. Eu vou gozar. Eu vou gozar. Esse cheiro circula pelo prédio. Os vizinhos estão na janela. Procuram uma evidência. Os caras manjam muito de CSI. Por que você está quieta? Vamos precisar de uma mala. Uma mala grande. Porra, por que o carro tinha de quebrar justo agora? Era só jogar na mala e pronto. A gente tira da garagem e estrada. Mas não, a gente tem sempre de empatar a foda. Querida, você fica tão bem de vermelho. Na esquina tá o velho deitado. Um cachorro na boca e um uísque no colo. Fuma uma laranja enquanto come um cigarro. Não, não pára. Eu vou. Eu vou. Em alguns minutos. É só esperar a porta. Eu sei que eles vão chegar. Eu vou. Eu vou. Eu vou. Eu fui. O gozo é foda, não acha? Agora é isso. Você deita na mala e fica quietinha. A gente apanha um táxi e vai pra fronteira. Depois é só caminhada até Honduras. Porra, que bosta de dieta você estava fazendo? Não dá pra segurar tanto passo. Sabe, num navio quase afundando o marujo joga peso fora. Que acha de tirar esse braço? Depois a gente implanta outro. E acho que você não vai precisar muito dele agora. Isso. Esse outro eu tiro também. Não, a serra tá afiada. Coisa de anteontem. Não se preocupe. A água começa a entrar e a correria rola solta. Caixotes no mar. O tesouro boiando e nenhum Indiana Jones pra ter uma idéia brilhante. Tipo aquele letreiro: “I'm lost too, baby”, saca? Olha só, já que vai na mala, num vai precisar andar. Então as pernas. Posso tirar também? Você procura um navio a distância, alguém que possa tirar você da lama. Mas tudo que vê é o beiço do tubarão esperando o primeiro naco da carne. Eles também sentem fome. Como corta fácil, viu? Está doendo? Não, claro que não. São anos de medicina, você sabe. Precisão cirúrgica. Dá uma olhada no espelho. A mais bela de todas. Sempre. Pronto. Agora é só abrir a porta, descer a escada e murmurar uma opereta. O navio num chega. Nessas horas um navio nunca chega. Você passa a vida esperando um farol que te guie. Depois de uma caralhada de tempo sentindo o cheiro da merda entrar pela escotilha, você deita na proa e espera que uma precezinha insossa te livre a cara. Mas o mar tá bravo. A tempestade domina. E o faroleiro, minha querida, tem um buraco de bala na testa. Onde está a porra da chave?



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h28
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Estendeu as cuecas no varal e jogou no lixo do banheiro alguns farelos de ódio que moravam na máquina de lavar

Era dia de faxina. Dia de tirar a preguiça do esqueleto e colocar uma ordem no figurino. Reciclou pratos cheirando a banha de porco, estendeu as cuecas no varal e jogou no lixo do banheiro alguns farelos de ódio que moravam na máquina de lavar em noites de melancolia e rompimentos. Demoraria muito tempo para remover a mágoa escondida no azulejo, mas pegou a água sanitária e tentou fazer um esforço bruto. Ele sabia que já estava em outra: a manga da camisa arrumada, o quarto asseado demais para quem o conhece e a ausência do sorriso dela nas gavetas mostravam isso. Na vitrola rolava um blues sem nome que encantava os cachorros coléricos da vizinhança. O mundo já não era mais um resto de miojo. Enquanto fumava um Campeão resolveu dar uma espiada embaixo do sofá e encontrou um naco de Ana Maria sabor doce de leite misturado a uma cobicinha açucarada. Com uma paciência quase não forçada, pegou um espanador azul e uma pá pra mover a sujeira acumulada. Olhou ao redor: as paredes brilhavam, os móveis refletiam sua imagem, não havia nem mesmo um resquício de solidão em cima do armário. Na cozinha, os pratos lançavam pequenos pingos transparentes no mármore da pia e resolveu que tinha fome. Então, um pouco mais cedo do que o costume, foi à feira. Comprou verduras fartas, legumes suculentos e uma felicidade momentânea quando alguém o olhou de relance. Voltou pra casa sabendo-se bonito e sentindo vontade de dançar. Puxou o balde, esparramou o líquido no chão e valsou uma metade de hora com a vassoura e o rodo no piso da cozinha antes de preparar a refeição. Pensou em conversas eternas demais para corpos mortais. Juntou em seu paraíso límpido quatro partes de uma alface americana, picotou grandes pedaços de tomate argentino, acrescentou umas pingadas de milho francês, derramou umas azeitonas espanholas, flertou com algumas batatas holandesas e deixou na geladeira a velha ranzinzice. Temperou tudo com uma pimenta forte, uns caldos de azeite, uma chuva de vinagre e um sal branco. Sentado em uma mesa de talheres reluzentes, deliciou-se com uma saborosa salada enquanto a carne de uma cabeça feminina cozinhava em banho-maria. Sentiu-se quase limpo.



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h27
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Bonecas infláveis conhecem o paraíso

Teu olhar néon brilha mais que os puteiros da esquina.
São dois faróis iluminando o tráfego
e um corpo jogado na encruzilhada
entre nacos de azeitona
e pontas de um cigarro estranho.

Ele fala com voz grossa
sobre economia e política.
Escolhe o candidato que será eleito
e nomeia presidentes de seu quarto escuro.

Já tinha visto lobos devorando pernas de mesa
e melancias crescendo em arco-íris.
Mas não sabia que bonecas infláveis
também conhecem o paraíso.

Justo ele que sempre trocou a fechadura
pra impedir que o elemento estranho entrasse
e estragasse as flores penduradas no kichute

Justo ele que jogava xadrez com duendes
somente pra passar o tempo
numa tarde em que chovia urina.

Ela tem um silêncio manso de silicone
mas percebe a intenção big brother
nos olhos azuis do lavador de playmobil
que se aproxima na escuridão.

Já tinha visto hipopótamos sobrevoando napalms
e crateras em que abutres dançam rumba.
Mas não sabia que homens perfeitos
Também soletram palavras imperfeitas.

Justo ela que tinha um sorriso imóvel
como um furo pra pau grande entrar
e engolir o gozo retraído e quente.

Justo ela que nunca havia cobrado
uma única moeda qualquer
pra saciar a azia de um viciado.

Agora são quatro faróis iluminando o tráfego
e dois corpos estirados na encruzilhada.
Mas quem se importa?



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h42
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A menina sorriu e chamou a décima - um texto para a Sinfonia Patética

 

Este texto eu escrevi hoje pensando na peça Sinfonia Patética, que reestrearemos no Espaço dos Satyros após temporada no Centro Cultural São Paulo. A peça fica em cartaz de 5 de setembro a 31 de outubro às quartas-feiras 22h30 no Satyros 1. Depois fica de 7 a 28 de novembro às quartas-feiras 21h no Satyros 2. Pode ser que o texto não explique muito o que é a peça, mas é por aí.

A menina sorriu e chamou a décima (Cesar Ribeiro)

Então o cara tava sentado. E tinha uma pá de cigarros e uma garrafa na mesa. E então todo mundo passava de um lado a outro e olhava o cara sentado com uma pá de cigarros e uma garrafa na mesa. Dava pra ver que estavam incomodados. O que aquele cara com uma pá de cigarros e uma garrafa estava fazendo sentado sozinho na mesa em uma noite de festa? Por que não estava dançando ou conversando com amigos ou dando uns amassos em uma garota? Mas o cara sentado na mesa tinha uma pá de cigarros e duas garrafas e estava contente. Não queria naquela hora perder horas conversando com amigos ou balançando o esqueleto ou dando uns amassos em uma garota. Ele estava feliz com sua pá de cigarros e suas duas garrafas na mesa. Todo mundo que passava de um lado a outro incomodado com o cara sentado na mesa começou a olhar mais. Eles pensavam que poderiam aliviar a tristeza do cara sentado na mesa. Algumas pessoas que faziam parte do grupo que passava de um lado a outro incomodado com o cara sentado na mesa começaram a pedir um cigarro, naquelas de tentar tirar a solidão do cara. O cara sentado na mesa dava o cigarro sem olhar muito bem quem pedia e voltava à sua pá de cigarros e às suas garrafas. O cara sentado com uma pá de cigarros e três garrafas na mesa tinha apenas um copo. E tudo que ele queria era fumar sua pá de cigarros e acumular garrafas de bebidas na mesa. Mas sabe lá por que todo mundo que passava de um lado a outro incomodado tinha aquela mania de salvação. Não costumavam salvar ninguém em tardes de trânsito na Avenida Paulista, mas naquele momento de festa precisavam que todos participassem da celebração coletiva. Um cachorro chorando na hora da trepada é sempre brochante, dizem alguns. Mas ninguém viu que o cara sentado com uma pá de cigarros e quatro garrafas na mesa não chorava. Nem estava triste. Nem estava melancólico ou pensando em morte e na injustiça do mundo. O cara sentado na mesa com quatro garrafas só pensava que queria que chegasse logo a quinta garrafa e que o próximo cigarro fosse aceso. Ele não tinha sido demitido, ninguém na família tinha morrido ou estava doente, não havia levado um fora de alguma namorada nem porra nenhuma do gênero. Então o cara tava sentado. E tinha uma pá de cigarros e cinco garrafas na mesa. E então uma menina do grupo de todo mundo que passava de um lado a outro olhou mais o cara sentado na mesa com uma pá de cigarros e seis garrafas na mesa e sentou. Não sorriu. Não falou. Não jogou olhares fatais. Apenas sentou. Pediu outro copo. Acendeu um cigarro. E fumou. E bebeu. O cara sentado com uma pá de cigarros e seis garrafas na mesa e a menina sentada com uma pá de cigarros e sete garrafas na mesa já não chamavam a atenção no meio da festa. Todo mundo passava de um lado a outro olhando o próximo alvo de caça ou correndo para a pista pra dançar a música do momento. O cara sentado com uma pá de cigarros e oito garrafas na mesa, depois duma meia hora de silêncio, olhou para a menina sentada com uma pá de cigarros e nove garrafas na mesa e falou “tá tão difícil beber hoje em dia”. A menina sorriu e chamou a décima.



Escrito por Cesar Ribeiro às 11h00
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Nas noites todo mundo se vira


 

Eu não sei como as coisas parecem pra você. Fala tanto e escuta tão pouco. Eu sumo porque não tou a fim de cagar regras, de planejar minhas noites e ter todo aquele papo de ligação pra saber como tá, se o papagaio passa bem e tal. Não sou de querer todo mundo legal, a maioria quero mesmo é que se foda. Mas você sabe que gosto de pensar que tudo corre bacana na tua vida. Você merece. Na medida do possível, é claro. Só não preciso estar contigo do lado pra perguntar isso ou você me dizer o que fez no seu dia. São sempre as diferenças, não é mesmo? Que um quer aquilo enquanto o outro quer tudo menos aquilo. E como me pergunta o que eu quero? Vou deixar bem claro: eu não sei o que quero, a não ser que tenha sempre aquela música pra ouvir e passar os dias. Nas noites todo mundo se vira, você sabe. Outra coisa: eu não entendo porque tudo tem de terminar com ponto final. Sempre querendo saber se continua ou se é um adeus. Estamos aí. Não pretendo embarcar naquela estrada hoje nem amanhã, apesar de muitas vezes achar que se apagar é o melhor remédio. Mas também não tou a fim de escutar música de elevador, saca? Não quero um engov. Sempre aceitei a bebedeira. E sei que às vezes bate a solidão, mas não tá escrito na tua testa que você é um prozac. Ainda que tivesse, seu remédio não tem bula. E é melhor que não tenha. Aí entraria o papo de contra-indicação e os quitutes todos. Tudo tem contra-indicação, não é? Mas tem também o outro lado. Só que não é a palavra que define, não é ficar sentado contigo no velho boteco, assistir à pecinha dos amigos, curtir a festa da semana. O lance é outro. É preciso convite pra entrar no meu espaço. E solto pouco esses convites e por breves momentos. Não tem saída. Quero minha cama cheia de trapos, os copos espalhados pela sala... Às vezes estou com um livro. Escrevendo minhas asneiras. Vendo porcarias na tevê. Pensando um pouco. O tempo corre e não sobra nada pra gente. Quero dizer, pra gente individualmente. Sempre num trampo, num caminho pra algum lugar, numa mesa cheia de gente ou a dois. Cuidando de alguém ou sendo cuidado. É esse o mecanismo geral, a gente sabe. E isso cansa, não? Esse papo de se esvaziar constantemente. Mas e aí? Em que posto a gente se abastece? E quando? É isso. Então entenda que, se o telefone tocar, posso não atender. Mas você ainda tem meu número. Fora que vem mais uma noite por aí. É lá que tudo acontece, não é? É lá que a gente existe, não é? Pode saber que nela eu fecho contigo. Fica só mais um recado: paz àqueles que são de paz e guerra àqueles que... Entendeu?



Escrito por Cesar Ribeiro às 20h19
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E então?

 

E então o cinema está morto e o teatro está morto e o rock está morto. Mas Elvis não morreu. E então o papa é pop e punk e os políticos são corruptos e os policiais são trogloditas. E então a mentira vale a pena e a psicologia cura a alma e o esporte socializa e as mecânicas de incentivo cultural são uma merda. E então os amores são frustrados e o trabalho é um cansaço e os Estados Unidos são imperialistas e os carros venezuelanos são bacanas. E então ser modelo é bacana e entrar no Big Brother gera fama e as novelas batem picos de audiência. E então o teatro está crescendo em São Paulo e a dramaturgia está também morta e a internet é um novo canal democrático. E então vai ser construída a hidrelétrica perto da Bolívia e o Corinthians se fodeu e a Dickmann está grávida. E então começou o Pan e o Cristo é uma Maravilha e o Rio continua lindo e não precisa das Forças Armadas. E então é preciso beber muito e a cocaína continua rolando solta e o tráfico cresce no país. E então a Vulcabrás é líder de mercado na América Latina e uma empresa de biodiesel se destaca na Bovespa e o Iraque continua em guerra. E então é preciso comprar uma tela de plasma e adquirir um iPhone e entrar na banda larga. E então o trânsito continua ferrado e as estradas estão esburacadas e nenhuma rua leva à minha casa. E então as noites são feitas para trepar e há sempre mulheres nas esquinas e a interpretação da Priscila Fantin desagradou ao diretor da novela. E então?



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h00
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Hoje não haverá blues

 

já não quero mais as pompas de um néon andaluz derrubando sombras nas janelas. o dia está claro e a ressaca pede que as cortinas fiquem fechadas. não há som aqui. as tevês e os helicópteros estão desligados. a metrópole está deserta. às vezes o silêncio ensurdece. mas há manhãs em que a noite invade, como se um sol omisso estivesse no banheiro chorando rancores. disputar o trono com a lua é foda. acho que hoje não haverá blues. tudo está deserto. você ainda está aí? vá. saia daqui. a festa acabou. é preciso um silêncio antes do fim.



Escrito por Cesar Ribeiro às 10h47
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